União Européia Archive

Lisboa a Caminho de Atenas

Desde o primeiro trimestre de 2010, Portugal passa por série de pacotes de medidas de austeridade com o intuito de lidar com a sua dívida

Por Ramon Blanco, em Todos os fogos o Fogo

Ao se pensar na atual crise das dívidas soberanas na Europa, muito das atenções tem se dirigido, e não sem razão, para a Grécia. Afinal, foi lá onde a crise foi deflagrada, há quase dois anos. No dia 21 foi aprovada a sexta parcela (€ 8 bilhões) do segundo pacote de empréstimos ao país, que tem valor total de € 109 bilhões. Juntamente com essa nova medida foi acordado com detentores da dívida grega uma redução de 21% no valor dos seus papéis. Na última quarta-feira (26), tal redução chegou a 50% para títulos mãos de credores privados.

Essa sexta parcela chega aos cofres gregos na primeira quinzena de novembro, altura na qual a Grécia já estaria sem dinheiro mesmo para pagar salários e aposentadorias da função pública. Contudo, apesar dos elevados valores, tais montantes deixam a Grécia respirar por apenas alguns curtos meses. Já há estudos que colocam as necessidades gregas para a próxima década perto dos € 440 bilhões e a sua dívida em 170% do PIB em 2012. Continue reading “Lisboa a Caminho de Atenas” »

Um plano para a Grécia

De pois de decretar a moratória da dívida e abandonar o euro, adotar moeda pouco valorizada, racionar produtos importados e criar condições para novo desenvolvimento

Por Costas Lapavitsas, The Guardian | Tradução Viomundo

A Grécia está diante de um desastre econômico e social, como resultado do assim chamado resgate pela troica da União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. A Grécia deve mudar de curso para evitar um futuro sombrio para seu povo: deve declarar moratória de sua dívida e sair da zona do euro.

Considerem primeiro a escala da crise. Depois das contrações de 2009 e 2010, o PIB caiu mais 7,3% no segundo semestre de 2011. O desemprego se aproxima de 900 mil pessoas e há projeção de que deve exceder 1,2 milhão de pessoas, numa população de 11 milhões. Estes dados nos fazem lembrar da Grande Depressão dos anos 30.

As causas claramente se encontram no programa econômico da União Europeia, FMI e Banco Central Europeu — a “troika”. No início de 2010 a Grécia estava de fato falida. Com sua sabedoria, a troika impôs políticas de austeridade severa e desregulamentação consistente com a ideologia neoliberal da União Europeia. Previsivelmente, a demanda desabou e o crédito bancário se tornou escasso, resultando no esmagamento do coração da economia grega. Continue reading “Um plano para a Grécia” »

Portugal e a luz no fim do túnel

Tudo o que pode ou não ocorrer nos próximos meses condicionará durante décadas a vida dos portugueses. 

Por Boaventura Sousa Santos, no Altermundo

O fantasma que assombra hoje os portugueses tem um nome: a luz ao fundo do túnel. Por agora, os portugueses não podem saber se a luz ao fundo do túnel é a luz diurna do ar livre ou o farol de um comboio que corre velozmente em sua direção. Sejam de direita ou de esquerda, ou nem uma coisa nem outra, os portugueses gostariam que a luz que imaginam fosse a primeira mas temem que seja a segunda. Este é o fantasma português e domina por inteiro o sistema político. Há também os portugueses que não vêem qualquer luz e a que gostariam de ver não seria ao fim do túnel e sim dentro do túnel, para não baterem com a cabeça nas paredes enquanto caminham. Estes são os portugueses fantasma de que o sistema político não se ocupa.

O fantasma da luz ao fundo do túnel tem dois efeitos políticos. O primeiro é que quem está no governo se serve dele para não respeitar o presente e atuar apenas legitimado pelo futuro que diz controlar. Todas as rupturas com o presente são imagináveis e todas são exigidas para que a luz ao fundo do túnel seja a luz diurna do ar livre. Tudo o que pode ou não ocorrer nos próximos meses condicionará durante décadas a vida dos portugueses.

Desde o 25 de Abril de 1974 que o futuro de curto prazo não se parecia tanto com o futuro de longo prazo. A vantagem do governo neste domínio é governar um país habituado a confundir sinais meteorológicos com sinais divinos. À partida, o milagre de Fátima não é mais ou menos credível que o da Troika [referência ao Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI, instituições que estão impondo cortes de direitos às sociedades europeias (Nota do Editor)}. Pagam-se promessas com a mesma devoção com que se pagam dívidas. Em ambos os casos, é apreciado ir de joelhos.

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Europa: dois banqueiros e um segredo

Mais que a Grécia, quem está à beira do colapso são duas mega-instituições financeiras: o Banco Central Europeu e o Deutsche Bank. Seus poderosos dirigentes querem escapar do desastre impondo cortes de direitos às sociedades

Por Jérôme Roos, no Esquerda.net

Durante um ano, o Deutsche Bank e o Banco Central Europeu (BCE) fizeram-nos acreditar que o que se passa na Grécia seria desastroso para a Europa. Estavam mentindo com todos os dentes da boca.

Em Frankfurt, dois dos homens mais poderosos da Europa sentam-se, virtualmente, um de cada lado da rua, nos edifícios-sede de duas das mais importantes instituições no continente. Ninguém elegeu estes homens para que governem sobre nós. Ninguém votou nas suas instituições para que ditassem a nossa política econômica. No entanto é o que fazem.

Apresentamos Jean-Claude Trichet e Josef Ackermann. O primeiro é o líder do Banco Central Europeu. Está de saída, e foi recentemente considerado pela Newsweek uma das cinco pessoas mais importamtes do mundo. O segundo é o líder do maior banco privado da zona euro, o Deutsche Bank, e foi recentemente considerado pelo The New York Times “o banqueiro mais poderoso da Europa”. Nenhum deles foi eleito para liderar a economia. No entanto, juntos é o que fazem. Continue reading “Europa: dois banqueiros e um segredo” »

A greve geral na Grécia

Às vésperas da votação, no Parlamento, do novo pacote de privatizações e corte de direitos, crescem os protestos da sociedade. Embora em maioria, governo pode ser derrotado

No Opera Mundi

Às vésperas da votação, no Parlamento, de um novo e impopular pacote de medidas de austeridade, os gregos organizaram, quarta-feira (15/6) uma nova greve geral de 24 horas, a terceira deste ano. Convocada pelos sindicatos majoritários, a greve teve apoio de funcionários do transporte público e também de jornalistas. Ficam fechados bancos, ministérios, serviços voltados ao público, creches e empresas estatais em vias de privatização.

Os hospitais públicos atenderam apenas casos de emergência, os meios de transporte urbanos foram interrompidos por algumas horas e o comércio em Atenas fechou mais cedo. As exceções desta vez foram as companhias aéreas e os aeroportos, que funcionaram normalmente e permitiram os voos para não afetar o turismo. Continue reading “A greve geral na Grécia” »

Crise alimentar: Oxfam põe o dedo na ferida

11 300x227 Oxfam acusa a Europa de agravar a fome mundial

 

ONG britânica lança campanha internacional e sustenta: subsídios da Europa e EUA, e insistência em biocombustíveis ineficientes, elevam preços e emperram combate à fome

Por Envolverde/IPS

Bruxelas, Bélgica, 1/6/2011 – Diante do aumento dos preços dos alimentos, que ameaça deixar mais milhões de famintos a cada ano, a Europa deve abandonar os subsídios e desacelerar os esforços na produção de biocombustíveis, afirmou a organização Oxfam. Ao apresentar sua nova campanha mundial contra a fome, o grupo também exortou a União Europeia (UE) a acompanhar mais de perto o comércio de matéria-prima e apoiar agricultores de pequena escala no Sul em desenvolvimento.

Phil Bloomer, diretor de campanhas da Oxfam na Grã-Bretanha, disse que promover a produção de combustíveis à custa da produção de comida é um “escândalo obsceno” que contribui para o aumento do preço do milho e de outros produtos básicos. O custo dos alimentos cresceu firmemente nos últimos meses, depois de atingir, em 2008, seu pico em 30 anos. “Exortamos a UE a acabar com seu mandato sobre os biocombustíveis e reorientar sua ajuda ao desenvolvimento com um nível maior de concentração, e também pedimos que realmente lidere o mundo nos esforços para encarar a volatilidade dos preços, a transparência e a regulação do mercado de alimentos”, disse Bloomer à IPS no lançamento da campanha “Grow” (Crescer), da Oxfam. Continue reading “Crise alimentar: Oxfam põe o dedo na ferida” »

Sobre xenofobias e ignorâncias

Grupo de imigrantes é resgatado em alto-mar e chega à ilha italiana de Lampedusa

Grupo de imigrantes é resgatado em alto-mar e chega à ilha italiana de Lampedusa

Um estudo espanhol revela que imigração traz grandes benefícios econômicos aos países europeus, e destroi mais um argumento dos que querem ver os estrangeiros pelas costas

Por Thaís Romanelli, no Opera Mundi

Grupos políticos conservadores e xenófobos europeus frequentemente utilizam-se da tese de que o fluxo migratório é prejudicial à economia e a diversos outros aspectos da sociedade local. Recentemente, baseada nela, França e Itália iniciaram uma mobilização para restringir a livre circulação de pessoas nas fronteiras internas da União Europeia.

Entretanto, um estudo espanhol divulgado nesta quarta-feira (04/05) aponta que o retorno financeiro com imigração é maior do que as despesas públicas.
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Costa do Marfim pode livrar-se do ditador

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Maurício Santoro traça, em Todos os Fogos, um perfil do país que foi “jóia da coroa” da África sub-saariana, sucumbiu a choques étnicos e parec prestes a livrar-se de Laurente Gbagbo

A Costa do Marfim já foi a jóia da coroa da África pós-colonial, mas na semana passada tornou-se cenário de mais uma guerra civil no continente – ela se junta aos conflitos existentes na Líbia, Congo e Somália. O cerne da disputa é a recusa do presidente Laurente Gbagbo (à esquerda, na foto acima) em reconhecer a derrota eleitoral para seu oponente Alassane Ouattara (à direita), que representa grupos étnicos e religiosos tradicionalmente discriminados no país. Tropas leais a Ouattara dominam quase todo o país, mas o presidente Gbagbo resiste em Abidjan, a cidade mais importante.

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O Brasil e a crise em Portugal

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Leis nacionais reduzirão apoio a algo apenas simbólico, mas visita de Lula e Dilma foi importante.  Pressões da mídia e dos mercados contra país europeu ignoram circunstâncias históricas

Por Mauricio Santoro, Todos os Fogos o Fogo

A viagem de Dilma e Lula a Portugal foi relegada para segundo plano em função da morte do ex-vice-presidente José de Alencar. É compreensível, mas foi uma pena, porque perdeu-se boa oportunidade para debater as relações entre o Brasil e sua antiga metrópole colonial, num momento em que a economia lusitana enfrenta uma crise séria que pode resultar em moratória, e que lembra muito as situações difíceis vividos pelos brasileiros nas décadas de 1989-90.

Portugal tem longa história de instabilidade financeira. De 1800 até hoje foram oito moratórias e a gestão da dívida pública foi um dos fatores decisivos para a instalação de António Salazar como ditador do país por mais de 40 anos. Atualmente, os portugueses compartilham com irlandeses, italianos, gregos e espanhóis a condição de economias problemáticas na União Européia, com a dificuldade de ajustar-se ao euro e em controlar os gastos públicos – a dívida portuguesa é de aproximadamente 100% do PIB. O gráfico abaixo o situa com relação aos outros “PIIGS”.

Sem a possibilidade de desvalorizar o euro, os custos do ajuste tornam-se ainda maiores e incluem o receituário tradicional de redução de salários do funcionalismo, privatizações e cortes em serviços públicos. São receitas amargas que criaram impasses políticos em Portugal. Em um ano o parlamento recusou quatro pacotes econômicos e há poucos dias o primeiro-ministro socialista José Sócrates renunciou após outro fracasso. Os partidos não foram capazes de articular um pacto nacional para superar a crise e o que aparece no horizonte é a possibilidade de recorrer a um auxílio internacional de emergência, combinando fundos da União Européia e do FMI.

O governo português solicitou ajuda ao Brasil, pedindo as autoridades brasileiras que comprassem títulos da dívida pública lusitana, num esforço de convencer os mercados financeiros da seriedade do compromisso de Lisboa com as reformas econômicas (Hugo Chávez fez algo assim quando Néstor Kirchner renegociou a dívida externa da Argentina). A presidente Dilma declinou, observando que as leis brasileiras só permitem ao Banco Central comprar papéis internacionais de classificação AAA, e as agências de risco já rebaixaram Portugal para patamares inferiores. Realpolitik. Estamos longe do tempo (anos 1950) em que um chanceler brasileiro dizia que as relações entre os dois países não eram políticas, mas “um caso de família”. Continue reading “O Brasil e a crise em Portugal” »

Repórteres sem Fronteiras — mas com partido

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Organização internacional já era vista com desconfiança, por omissão diante de golpes militares. Agora, seu fundador admite simpatia com candidata da extrema-direita francesa

Por Altamiro Borges, Blog do Miro

O francês Robert Ménard, fundador e chefão da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) durante longas décadas, já enganou muita gente com suas bravatas em defesa da liberdade de expressão. Na semana passada, porém, ele tirou de vez a fantasia e confessou sua simpatia pela Frente Nacional (FN), o partido de extrema-direita da França que prega o racismo, o ódio aos imigrantes e outras teses fascistas.

Em entrevista à influente cadeia de rádios RTL, o falso democrata mostrou-se irritadiço, repetindo “deixe-me falar”, e abriu o jogo – para surpresas dos mais ingênuos. Ele festejou o crescimento da FN de Marine Le Pen nas eleições locais, quando obteve 14,7% dos votos, e afirmou: “Não só os entendo, como os aprovo… Aprovo certo número de pontos de vista de Marine Le Pen”. Diante dos jornalistas, Ménard mostrou-se injuriado. “Estou farto do desrespeito que vocês têm [diante do direitismo da FN]”.

A sinistra história da ONG

Ele ainda lamentou a pouca representatividade da seita fascistóide e desembuchou: “É um partido legal, não é um partido fascista e nem vergonhoso”. Após elogiar Marine Le Pen, filha do racista Jean-Marie Le Pen que o substituiu no comando da sigla, Ménard ainda fez questão de manifestar seu ódio visceral às forças de esquerda a França. “Penso que o Partido Comunista e Jean-Luc Mélanchon são tão perigosos quanto a Frente Nacional”.

As declarações bombásticas do fundador da ONG Repórteres Sem Fronteira (RSF) não deveriam causar surpresas. É só conhecer um pouco da história desta organização para saber dos seus vínculos com setores da extrema-direita no mundo todo. Reproduzo abaixo trechos de um capítulo do livro “A ditadura da mídia” para refrescar a memória dos mais incautos.
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