Tunísia Archive

A primavera das mulheres árabes

Reportagem sobre alguns dos aspectos mais instigantes das revoltas no Oriente Médio: a presença feminina autônoma, as primeiras vitórias e a luta para evitar deriva fundamentalista.

Por Juan Cole*, TomDispatch.com | Tradução Opera Mundi

A “Primavera Árabe” tem recebido muita atenção na mídia norte-americana, mas um de seus elementos cruciais tem sido ignorado: o papel impressionante das mulheres nos protestos que varrem o mundo árabe. Apesar da cobertura inadequada de seu papel na mídia, as mulheres estiveram e frequentemente permanecem à frente desses protestos.

Para começar, as mulheres tiveram uma posição significativa nas manifestações tunisianas que desencadearam a Primavera Árabe, muitas vezes marchando pela Avenida Bourguiba, em Túnis, a capital, puxando seus maridos e filhos. Depois, o estopim do levante egípcio que forçou a queda do presidente Hosni Mubarak foi uma manifestação em 25 de janeiro na Praça Tahrir, no Cairo, convocada por uma jovem apaixonada por meio de um vídeo postado no Facebook. No Iêmen, colunas de mulheres de véu saíram às ruas em Sanaa e Taiz para derrubar o autocrata do país, enquanto na Síria, enfrentando a polícia secreta armada, as mulheres bloquearam estradas para exigir a libertação de seus maridos e filhos presos.  Continue reading “A primavera das mulheres árabes” »

Tunísia, revolução e arte

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Imagens uma intervenção urbana radical: um coletivo de artistas plásticos cobre, com imensas fotos de gente comum, os antigos monumentos ao ditador. Por Bruno Cava, no Quadrado dos Loucos

Fotografias em preto-e-branco, fonte: Al-Jazeera

E pensar que a revolução árabe eclodiu quando um camelô teve a barraquinha apreendida numa operação “choque de ordem”. O levante tunisiano rompeu os diques e, cem dias depois, as revoltas inundam 19 países no norte da África e no Oriente Médio (ler aqui o estado da luta). Continue reading “Tunísia, revolução e arte” »

Mohamed Bouazizi, o herói de Nietzsche

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Ele matou-se porque não podia trabalhar, não podia sobreviver e não podia aceitar a humilhação de levar uma bofetada diante do confisco de sua mercadoria. Seu gesto desencadeou a revolução

Estou viajando mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer.

—Mohamed Bouaziz

Por Diego Viana, Amalgama

Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscreto empresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado.

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Revolução 2.0: modos de usar

Em três textos, as jornadas incomuns que derrubaram Mubarak, a organização em rede que deflagrou e sustentou a mobilização, e as primeiras transformações sociais no Egito

Algumas dúvidas assaltam, com frequência, muitos dos que acompanham a onda de revoltas árabes: é possível chamá-las de revoluções? Como – se, ao menos por enquanto, não se produziu nenhuma mudança fundamental nas relações entre as classes sociais, não se substituiu o capitalismo, não se instituíram novas formas de poder?

Outras Palavras publica hoje três textos que podem informar e alimentar este debate. Referem-se o país mais populoso e influente entre os que estão vivendo o vendaval – e, provavelmente, aquele em que as multidões viveram a experiência política mais dramática. Não se propõem ao debate teórico: são duas reportagens e uma crônica. Sua força está em relarem fatos extraordinários. Continue reading “Revolução 2.0: modos de usar” »

Como enxergar a revolução árabe pela ótica da multidão?

Há dois modos de mirá-la: sob a ótica do poder ou da multidão. A primeira predomina na grande mídia. Como vê-la pelo outro lado?

Por Bruno Cava, do Outras Palavras e Universidade Nômade

Entrou o mês de março e a revolução árabe segue com ímpeto irreprimível, surpreendendo até os mais otimistas analistas de esquerda. Praticamente todos os países árabes foram impactados pelos tumultos, que irromperam na Tunísia na virada do ano. A revolta se alastrou por populações até pouco tempo tidas por “despolitizadas” e desarticuladas, contra regimes considerados sólidos como rocha. Duas ditaduras enraizadas há décadas e apoiadas pela ordem imperial (financeira, militar, midiática) tiveram seus líderes depostos em questão de semanas. Tudo indica que o déspota líbio Muammar Gaddafi seja o próximo, e o espectro revolucionário assusta governantes não só da região.

Na Tunísia e no Egito, a revolução entrou por assim dizer num segundo estágio. As multidões seguem mobilizadas, pois querem mais do que a mera troca de dirigentes. Exigem a mudança estrutural do sistema político e econômico.

Na Líbia, freme uma luta aguda entre o movimento de rebeldes e as forças remanescentes de Gaddafi, isto é, tropas leais e esquadrões mercenários de extermínio. As batalhas são esganiçadas também no Bahrein e no Iêmen, onde os manifestantes confrontam a brutal repressão por parte dos autocratas. Mas também estão cobertos de protestos, em maior ou menor grau, o Iraque, o Omã, a Jordânia, a Argélia, o Sudão e o Marrocos. Em toda parte, e os vídeos do youtube não me deixam mentir, é impressionante como os insurgentes não se amedrontam, se expõem aos maiores perigos, e seguem contestando a ordem estabelecida.

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Seguem os protestos árabes, ainda sem respostas

Por Stephen Lendman, do Countercurrents | Tradução: Coletivo VilaVudu

Até agora, semanas de rebeliões regionais nada conseguiram. Apesar da saída de Mubarak da presidência do Egito e de Ben Ali, da Tunísia, os dois regimes permanecem governando, e nada oferecem além de promessas.

Dia 26/2, um mês depois das primeiras manifestações, os egípcios voltaram a protestar na Praça Tahir. Naquele dia, foram atacados pelas forças militares. A Agência Reuters, sob manchete que dizia “Militares egípcios enfurecem manifestantes no Egito, com show de força”, noticiava:

“Soldados usaram a força no sábado para interromper manifestação que exigia mais reformas políticas no Egito, segundo manifestantes, no ataque mais dura, até agora, contra ativistas de oposição que acusam os militares egípcios de estarem “traindo o povo”.

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Seis focos da revolução árabe hoje

Por Juan Cole, do Informed Comment | Tradução: Bruno Cava

1. Jordânia. Cerca de 6.000 manifestantes marcharam na sexta. Protestaram pela transformação da monarquia jordaniana numa monarquia constitucional aos moldes europeus e o retorno à constituição de 1952 sem alterações.

2. Tunísia. Cerca de 100.000 tunisianos saíram às ruas de Túnis na sexta para exigir a renúncia do primeiro-ministro interino Mohamed Ghannouchi. O governo de transição marcou eleições para meados de julho, uma demanda chave dos manifestantes. Também dissolveu o antigo partido no poder [do ditador Zine Ben Ali], a União pela Democracia Constitucional, negando-a vantagens que usufruía no processo eleitoral. Não acreditam em Ghannouchi, alguém orgânico do regime do presidente deposto, para supervisionar as eleições. Ghannouchi tenta ganhar popularidade prendendo elementos do núcleo duro corrupto de Ben Ali, mas até agora isso não foi suficiente para abalar sua reputação como cupincha do ditador.

Atualização (13:32 BR): O primeiro-ministro da Tunísia, Mohamed Ghannouchi cedeu às pressões e anunciou a renúncia na tarde de hoje, na capital Túnis.

3. Egito. Dezenas de milhares de manifestantes ocuparam a Praça Tahir no centro do Cairo, na sexta, exigindo o cancelamento das leis de exceção que suspenderam os direitos civis no Egito nos últimos 30 anos. Também querem que o primeiro-ministro Ahmad Shafiq, indicado pelo presidente deposto Hosni Mubarak, renuncie, de modo que possa haver uma ruptura clara com o antigo regime. O exército egípcio preveniu a multidão de marchar até a residência do primeiro-ministro, e reprimiu, em geral, os dissidentes.

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Revolução: a vez do Bahrain e da Arábia Saudita?

Revolta popular cresce na pequena monarquia e desponta no maior produtor mundial de petróleo. Mas são aliados dos EUA — e, portanto, “modernos” para a velha mídia…

Por Pepe Escobar, do Asia Times Online | Tradução: Coletivo VilaVudu

Um espectro ronda o Golfo Persa: a democracia [1].

Nessa terça-feira, nada menos que 20% da população do Bahrein reuniu-se na rotatória Lulu (Pérola) (na foto) em Manama na maior manifestação contra a monarquia feudal, ação intimamente conectada à grande revolta árabe de 2011. Amostra de toda a sociedade bahraini – professores, advogados, engenheiros, suas mulheres e filhos – numa marcha infinita, em volta do monumento, coluna compacta nas cores vermelho e branco, da bandeira nacional.

Na quinta-feira, havia motivos para crer que a revolta alcançara o santo graal, i.e., a Casa de Saud, quando 100 jovens saíram às ruas de Hafar al-Batin, nordeste da Arábia Saudita, exigindo o fim dessa monarquia feudal encharcada em petróleo. O extraordinário é que tenha acontecido justamente quando o “Guardião das Duas Mesquitas Sagradas”, rei Abdullah da Arábia Saudita, 85 anos, voltava para casa depois de três meses de tratamento médico e cirurgia nos EUA e convalescença no Marrocos – em plena onda de massiva propaganda do regime, completada com toques de orientalismo, como um homem vestido de branco dançando danças tradicionais beduínas sobre tapetes especialíssimos.

Para a Casa de Saud, a revolta é o pesadelo absoluto: como todo o mundo já está sabendo, um Bahrain microscópico, de maioria xiita, mas também microscópica, faz fronteira com a região da Arábia Saudita, de grande maioria xiita, onde está o petróleo.

Líbia: revolução além da crise

Por Hugo Albuquerque, de O Descurvo

Desde que esse processo revolucionário multitudinário tomou conta do Mundo Árabe com a Revolução dos Jasmins, insistimos que se referir aos atuais acontecimentos como fruto de mera degradação na condição de vida das pessoas, quem sabe uma consequência direta dos efeitos da Crise Mundial, trata-se de um equívoco fortíssimo.

Não, nem a Tunísia, tampouco os países afetados pelo efeito dominó, são os mais pobres, desiguais ou politicamente opressivos do continente africano ou do mundo, embora eles sejam pobres, desiguais e opressivos. Antes de mais nada, é preciso ponderar o que disparou essa fantástica explosão do desejo e entender como ele interferiu no campo social. Enfim, uma economia política formalista, incapaz de considerar o desejo, jamais será capaz de produzir uma análise precisa da questão.

O fato é que mesmo que a Crise Mundial tenha agravado as condições de vida da região, fatores demográficos — que propiciam uma enorme quantidade de jovens naqueles países, por exemplo — e políticos — a irrupção, finalmente, de um modelo de militância capaz de fazer multidão, alternativo ao enferrujado nacionalismo árabe ou ao fundamentalismo islâmico e suas ambiguidades — conseguiram reverter um quadro que, há pouco menos de um ano, era de mais perfeita servidão.

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Líbia: nem capitalismo, nem socialismo

Apesar dos abalos continuados no Iêmen e no pequeno Bahrein, o epicentro do terremoto revolucionário agora está na Líbia. Depois de derrubar ditaduras na Tunísia e no Egito, países fronteiriços a oeste e leste, a terceira peça do dominó parece ser mesmo o estado “socialista e popular de massas”, comandado por Muammar al-Gaddafi há 41 anos.

O desdobramento da revolução árabe contesta narrativas apressadas. Alguns analistas vêem como fator causador do movimento a aliança entre as elites dirigentes e o bloco EUA-Israel. Culpam o pacto neoliberal em vigor há três décadas, entre governos servis e interesses do capital internacional. As pessoas revoltaram-se contra os regimes tunisiano e egípcio porque perceberam não passar de instrumentos a serviço do mercado global e suas usinas de desigualdade e injustiça. A insatisfação das massas diante do capitalismo e do americanismo contrastava com a dócil subserviência dos dirigentes. Esse contraste acabou por minar a legitimidade dos ditadores Zine Ben Ali e Hosni Mubarak, que sucumbiram aos primeiros fogos.

Daí a expectativa desses analistas, que a revolução tivesse por progressão solapar os governos mais pró-ocidente da Arábia Saudita, da Argélia, do Marrocos. Mas não esperavam, — pelo menos não agora e com essa fúria, — a Líbia.

Embora um dos maiores países do continente, a população líbia se espreme numa delgada faixa de praias, palmeiras e figueiras, entre o Mediterrâneo e a imensidão do sertão saariano. Conta 6,4 milhões de cidadãos, pouco mais da metade da vizinha Tunísia, cuja área é 11 vezes menor. A capital Trípoli, no oeste do país, tem o porte de uma metrópole média como Porto Alegre. Benghazi, a segunda cidade e pólo da região leste, ombreia com a litorânea Santos.

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