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Os favores da Receita brasileira ao Santander

CARF, órgão quase ignorado pela opinião pública, perdoa R$ 4 bilhões de impostos, de banco espanhol que já lucra, no Brasil, 2,5 vezes mais que em sua sede

Por Mauro Santayana, em seu blog

A EBA – European Bank Authority – acaba de anunciar que os bancos espanhóis serão os que mais necessitam de capitalização, na Europa – depois dos gregos -, no combate à crise, e terão que levantar mais de 26 bilhões de euros nos próximos meses.

O Santander será o mais afetado, necessitando de quase 15 bilhões de euros. Enquanto isso, o banco provoca, a cada trimestre, verdadeira sangria na economia brasileira. A matriz na Espanha é responsável por apenas 10% do lucro, enquanto o Santander Brasil aporta mais de 25% dos resultados operacionais do grupo.

Ao mesmo tempo, em nosso país, os membros do CARF – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda – acabam de isentar, em uma decisão inesperadamente unânime – o Santander de pagar cerca de quatro bilhões de reais à Receita Federal. Continue reading “Os favores da Receita brasileira ao Santander” »

O país em que os banqueiros podem ser presos

Histórias da economia da Islândia. Lá população acaba de rejeitar, em plebiscito, o uso de dinheiro público para socorrer os bancos — e as agruras do sistema financeiro não param por aí…

Por Claudi Pérez, no El País | Tradução de Paula Sequeiros, do Esquerda.net

Procura-se. Homem, 48 anos, 1,80 metros, 114 quilos. Calvo, olhos azuis. A Interpol acompanha esta descrição de uma foto na qual aparece um tipo bem barbeado enfiado num desses ternos escuros de 2000 euros e enfeitado com um impecável nó de gravata. Vê-se a quilômetros que se trata de um banqueiro: este não é um desses cartazes do oeste selvagem. A delinquência mudou muito com a globalização financeira. E contudo esta história tem contornos de western de Sam Peckinpah ambientado para o Ártico. Isto é a Islândia, o lugar onde os bancos vão à ruína e os seus dirigentes podem ir para a cadeia sem que o céu se abata sobre as nossas cabeças; a ilha onde apenas meio milhão de pessoas armadas com perigosas tochas podem derrubar um governo. Isto é a Islândia, o pedaço de gelo e rocha vulcânica que em outros tempos foi o país mais feliz do mundo (assim, tal como consta) e onde agora os taxistas lançam os mesmos olhares furibundos que em todas as partes quando alguém lhes pergunta se estão mais chateados com os banqueiros ou com os políticos. Enfim, isto é a Islândia: paraíso sobrenatural, reza o cartaz que se avista do avião, mesmo antes de desembarcar.

O tipo da foto chama-se Sigurdur Einarsson. Era o presidente executivo de um dos grandes bancos da Islândia e o mais temerário de todos, Kaupthing (literalmente, “a praça do mercado”; os islandeses têm um estranho sentido de humor, além de uma língua milenar e impenetrável). Einarsson já não está na lista da Interpol. Foi detido há uns dias na sua mansão de Londres. E é um dos protagonistas do livro mais lido na Islândia: nove volumes e 2400 páginas para uma espécie de saga delirante sobre os desmandos que a indústria financeira pode perpetrar quando está totalmente fora de controle.

Nove volumes: episódios nacionais em que se demonstra que nada disso foi um acidente. A Islândia foi saqueada por cerca de vinte ou trinta pessoas. Uma dezena de banqueiros, uns poucos empresários e um punhado de políticos formaram um grupo selvagem, que levou o país inteiro à ruína: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluindo os dois líderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empréstimos pessoais de quase 10 milhões de euros por cabeça. Está por demonstrar que isso seja delito (embora pareça que parte desse dinheiro servia para comprar ações dos próprios bancos: para fazer inchar as cotações), mas pelo menos é um escândalo enorme.

A Islândia é uma exceção, uma singularidade; uma raridade. E não só por deixar os seus bancos ir à falência e perseguir os banqueiros. A ilha é uma paisagem lunar com apenas 320 mil  habitantes, a meio caminho entre a Europa, os EUA e o círculo polar, com um clima e uma geografia extremos, com uma das tradições democráticas mais antigas da Europa e, último tópico, com uma gente de indomável caráter e uma forma de ser e fazer das mais peculiares. Um lugar onde um desses taxistas furibundos, depois de deixar para trás a capital, Reikjavik, se mete por uma língua de terra rodeada de água e deixa o jornalista ao pé da distinta residência presidencial, com o mesmíssimo presidente esperando na soleira da porta: qualquer um pode aproximar-se sem problemas, não há medidas de segurança, sequer um policial. Só o pormenor exótico de uma enorme pele de urso polar no alto duma escadaria tira do pasmo quem numa primeira entrevista com um presidente dum país dá com um mandatário – Ólagur Grímsson, que considera “uma loucura” que os seus concidadãos “tenham de pagar a fatura da banca sem serem consultados”.

E do presidente ao cidadão de pé-no-chão: da particularidade à categoria. Arnar Arinbjarnarsson é capaz de resumir o apocalipse da Islândia com surpreendente impavidez, à frente dum fumegante capuchino no central Café Paris, a dois passos do Althing, o Parlamento. Arnar tem 33 anos e estudou engenharia na universidade, mas, ao acabar nem sequer lhe passou pela cabeça desenhar pontes: um dos bancos contratou-o, apesar de não ter formação financeira. “A banca estava experimentando um crescimento explosivo, e para um engenheiro é relativamente simples aprender matemática financeira, sobretudo se o ordenado for estratosférico”, alegra.

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Crise: a delicada recuperação dos "emergentes"

Entre o alívio e a apreensão (Foto: Kasher)

Entre o alívio e a apreensão (Foto: Kasher)

China, Brasil e Índia estão menos sujeitos à tempestade global. Ação ousada dos Estados contrariou dogmas neoliberais e protegeu os países, admite “The Economist”. Mas nem todos os riscos foram afastados

A edição desta semana da revista britânica The Economist traz uma interessante análise sobre a nova reviravolta na situação das principais “economias emergentes” — China, Índia e Brasil, em primeiro lugar. Há um ano e meio, quando ficou claro que os Estados Unidos mergulhariam numa recessão grave e duradoura, falou-se no “desacoplamento”. Considerava-se que certos países do Sul do planeta haviam reunido condições para evitar o contágio. No final do ano passado, acreditou-se no contrário. Súbitas ondas de demissão, e o recuo abrupto do PIB, pareciam revelar que o redemoinho da crise era forte demais para poupar qualquer nação. Agora, retorna a impressão de uma tranquilidade relativa. Na China, a economia deverá crescer 8%. No Brasil, embora em termos mais modestos, a produção dá sinais de vida e as contratações voltaram.

Por que? Segundo a revista, a onda forte de pessimismo, entre novembro e março, tinha mais a ver com um problema financeiro (o pânico nos mercados de crédito) que com uma dependência estrutural do Sul em relação ao Norte. A China, nota The Economist, já exporta mais para os países “em desenvolvimento” que para os ricos. E seu crescimento acaba de fazer dela o maior importador de produtos brasileiros, à frente dos Estados Unidos.

Há dois fenômenos importantes, por trás destes movimentos. O primeiro, a própria matéria destaca — apesar de seu passado notoriamente neoliberal. Estão se safando os “emergentes” que adotaram políticas opostas a tudo o que  as receitas ortodoxas recomendam. Ao invés de corte drástico de investimentos (aqui, os célebres “ajustes fiscais” de 1998 e 2002), os Estados do Brasil, ìndia e China partiram para medidas corajosas de reativação das respectivas economias. Foi isso que evitou o pior. A segunda hipótese (não formulada pela revista) precisa ser examinada em mais profundidade. Terá o antes chamado “terceiro mundo” reunido densidade econômica e laços entre si mesmo para deixar a condição de uma área econômica de comportamento “reflexo” — isto é, subordinado e dependente?

Falta muito para saber. Primeiro, porque entre os próporios países “em desenvolvimento” a situação é muito desigual. No Leste Europeu, a região que se manteve mais fielmente aferrada aos dogmas neoliberais, a situação é dramática (naturalmente, a mídia brasileira faz silêncio). Estima-se que a produção recue, este ano, 3,5% na Croácia, 4,1% na Romênia, 8% na Ucrânia, 10% na Estônia e Lituânia, 12% na Letônia. Mas haverá dramas também em países que atrelaram muito seu comércio aos EUA (como o México), ou cujas exportações dependem quase apenas de produtos primários (como a Venezuela e a Argentina).

Além disso, uma variável essencial da equação permanece incógnita. Até mesmo China, Índia e Brasil dependeram, para respirar, do alívio nos mercados internacionais de crédito. É algo que começou a se manifestar no segundo trimestre deste ano, depois de os Bancos Centrais dos países ricos despejarem um dilúvio de dinheiro no sistema. Ninguém sabe ainda nem se os efeitos serão duradouros, nem até quando as comportas poderão permancer abertas. Se as respostas a estas dúvidas forem negativas, também os “emergentes” bem-sucedidos terão de encontrar outras fórmulas, para manter o pescoço sobre a água.

Doze pontos para uma nova economia

As idéias do Put People First: ao invés de discurso ideológico, propostas concretas, capazes de grandes transformações

Eis uma versão em português da plataforma de doze pontos do movimento quer organiza a grande manifestação de Londres:

I. Salvar primeiro as pessoas: assegurar governança democrática da economia:

1. Obrigar os paraísos fiscais a respeitarem normas internacionais rigorosas.

2. Promover reformas amplas no sistema de direção e governança do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.

3. Tornar todas as instituições financeiras, produtos financeiros e empresas transnacionais transparentes e sujeitas a prestação pública de contas.

II. Empregos: ocupações decentes e serviços públicos para todos:

4. Promover investimentos maciços num new deal verde, para construir uma economia sustentável, baseada em trabalho decente e remuneração justa.

5. Fortalecer os orçamentos destinados aos serviços públicos.

6. Agir para assegurar recursos de emergência para todos os países que deles necessitam, sem exigir contrapartidas e condicionalidades prejudiciais às sociedades.

III. Justiça: acabar com a pobreza e a desigualdade globais:

7. Destinar, até 2013, ao menos 0,7% da renda nacional dos países ricos para o apoio ao desenvolvimento, e de forma mais eficaz; pressionar para o cancelamento de todas as dívidas ilegítimas ou impagáveis dos países do Sul.

8. Assegurar que os Estados mais pobres tenham condições de gerir suas economias, inclusive controlando os fluxos externos de capital financeiro.

9. Interromper as pressões para que os países em desenvolvimento liberalizem e desregulamentem suas economias; não tentar retomar a Rodada de Doha, rejeitada diversas vezes por estas nações.

IV. Clima: Construir uma economia verde:

10. Além do new deal verde (recomendação 4), introduzir as regulamentações robustas e os incentivos financeiros necessários para construir uma economia verde.

11. Promover, na conferência de Copenhagem, um acordo que assegure cortes substanciais e comprováveis nas emissões de gases do efeito-estufa, de forma a evitar que o aquecimento terrestre ultrapasse 2º C.

12. Assumir compromissos com novas e substanciais transferências de recursos do Norte para o Sul, para apoiar as adaptações energéticas e o desenvolvimento sustentável nos países empobrecidos.

EUA: os grandes bancos à beira do abismo

Estatização pode vir agora ou em seis meses, mas parece inevitável. Gravidade da crise promoveu reviravolta brusca no pensamento da opinião pública

(veja, abaixo, link postado por Vanderlei)

Altos executivos dos Citigroup — que até o final de 2006 revezava-se com o Bank of America e o HSBC na condição de maior banco privado do planeta — passaram a terça-feira (24/2) reunidos com autoridades do governo norte-americano, segundo o New York Times. A bateria de encontros pode resultar, nas próximas horas, no anúncio de estatização, ao menos temporária, daquele que foi, no século 20, um dos símbolos do capitalismo. O declínio acelerado do Citi é um sinal da profundidade da crise — mas também ajuda a compreender a gravidade dos fatos que levaram a estatização a passar, em poucos meses, de anátema a medida quase consensual.

A situação do Citigroup veio à tona a partir de sexta-feira (20/2), quando as ações do grupo sofreram, na bolsa de Nova York, a sétima baixa consecutiva. O valor de mercado do banco despencou para meros 10% do que era no início de 2008. Também surgiram sinais de que o grupo poderia necessitar, a curto prazo, de um novo aporte de recursos do Estado (agora, de 45 bilhões de dólares). Em situação semelhante estariam o Bank of America, também no grupo das três maiores instituições financerias dos EUA. Embora menos urgente, a situação do último membro da tríade — o JPMorgan-Chase — também seria delicada.

Os bancos estão próximos da falência porque a ajuda que já receberam do Estado norte-americano é insuficiente para compensar as enormes perdas que estão sofrendo com a onda de inadimplências e a paralisia dos mercados de crédito. Num artigo publicado publicado sexta-feira, o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, apresentou os dados cruamente: a) “Os bancos estão à beira do abismo. Já teriam quebrado, se os investidores não acreditassem que o governo agirá, em caso de necessidade”; b) O governo precisa resgatá-los. A quebra do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, quase destruiu o sistema financeiro internacional. No caso do Citi ou BoA, muito maiores, as conseqüências seriam incalculáveis; c) Porém, é possível que Citi e BoA requeiram, nos próximos anos, centenas de bilhões de dólares — muito mais do que seu valor atual. O Estado norte-americano não tem condições nem financeiras, nem políticas, de fazer o resgate sem assumir a propriedade das instituições — para ao menos reduzir o prejuízo dos contribuintes. Cálculos do New York Times sugerem que as despesas já comprometidas pelo Estado norte-americano no socorro aos mercados financeiros podem chegar a 9 trilhões de dólares (veja nota abaixo).

Talvez por isso, a onda de apoio à estatização tem crescido velozmente. Na semana passada, aderiram a ela o senador republicano Lindsey Graham, o ex-candidato à presidência John McCain e até mesmo Alan Greenspan, ex-presidente do banco central dos EUA (o FED), conhecido por sua defesa intransigente dos “livres” mercados.

Se a estatização não vier nos próximos dias, será por duas razões essenciais. A ideologia: parte do establishment norte-americano continua resistindo à medida, apesar de todas as evidências concretas a recomendarem. Ou o timing: paradoxalmente, analistas ainda mais pessimistas que Krugman sugerem que o Estado mantenha as instituições ardendo em fogo lento, para assumir seu controle de forma mais eficaz mais tarde. É o caso de Nouriel Roubini, talvez o mais arguto analista da crise. Segundo ele, o melhor momento para agir será em cerca de seis meses. Então, “mesmo bancos que parecem solventes agora vão se revelar insolventes. Será o caso de quase todos as grandes instituições. Nacionalizá-las ao mesmo tempo vai provocar menos danos do que assumir o controle sobre um ou dois agora, criando pânico e confusão”.

O BC brasileiro quer salvar os bancos dos EUA?

No Brasil, as medidas adotadas pelo Banco Central a pretexto de enfrentar a crise continuam blindadas de um debate mais sério. Os jornalões são dóceis a Henrique Meirelles; os blogs e sites críticos não acompanham em profundidade as políticas do BC. O texto enviado por Vanderlei ao blog é uma exceção. É assinado por Carlos Lopes e foi publicado originalmente em Hora do Povo. Sugere que o BC está desperdiçando US$ 36 bilhões das reservas brasileiras para pagar as dívidas das grandes empresas brasileiras atingidas pelo congelamento dos mercados de crédito. Lopes argumenta que seria entregar um rio de dinheiro para as instituições internacionais que provocaram a crise e estão, na prática, falidas. É um debate mais que necessário. O texto pode ser lido a seguir Continue reading “EUA: os grandes bancos à beira do abismo” »

Reviravolta política na Islândia

Após sério colapso financeiro, população toma as rédeas da política e demonstra que organização social é a melhor alternativa à crise do neoliberalismo

Por Marília Arantes

Há não mais que dez anos um governo conservador, composto por banqueiros em maioria, decidiu transformar radicalmente a economia da Islândia. Da tradicional ilha pesqueira, aumentaram suas expectativas de crescimento formando ali algo como um enorme fundo de investimentos. Em pouco tempo, internacionalizaram bancos e os tornaram independentes da economia real.

Após anos de boom econômico e muito capital volátil, o ano de 2008 representou uma ameaça para a Islândia e seu sistema financeiro. Não somente por uma crise que já se anunciava, mas como muitos analisam, pela falta de experiência e controle dos mecanismos bancários.

Então, assim que caíram os muros de Wall Street, em outubro de 2008 a Islândia foi o primeiro país a quebrar com a crise. Em desespero, o governo neoliberal tomou controle dos três maiores bancos do país para tentar estabilizar a economia. Sem maiores resultados, semanas depois entraram para a história como o primeiro país do Norte a precisar da ajuda do FMI. Receberam 2,1 bilhões de dólares do fundo que, por sua vez, passou a a intervir na economia do país.

A população reagiu e não demorou muito para que manifestações tomassem as ruas de Reikjavick, a capital. A presença do Partido Conservador na diretoria do Banco Central foi motivo de revolta. Eles haviam deixado a Islândia – que não devia nada a ninguém – com uma dívida que já ultrapassa seu PIB anual.

Como deixar nas mãos de irresponsáveis um resgate que será pago por sabe-se lá quantas gerações de islandeses? Por fim, a mobilização social conseguiu depor o governo. No dia 26 de janeiro, o então primeiro-ministro Geir Haarde entregou seu cargo ao governo provisório de Johanna Sigurdardottir, uma coligação da esquerda com o Partido Verde, a esperança em tons de verde e vermelho.

Pela primeira vez uma mulher homossexual governa uma nação, até pelo menos as eleições que acontecerão em maio desse ano. Embora seus planos de resgate não tenham sido anunciados, comenta-se que a solução de emergência considerada incluiria o país de vez na União Europeia. Contudo, a ideia não agrada a maioria, pois perderiam a exclusividade de pesca em extensões marítimas que conseguiram após anos de disputa com o Reino Unido.

Por mais que não se saiba que fim levará a soberania da Islândia, importante é que – independentemente de soluções oficiais – uma rede de solidariedade está se fortalecendo para superar a crise fulminante. E o mais interessante: as alternativas fogem às tradicionais receitas do socialismo do século 20.

Até agora são iniciativas horizontais e participações sociais espontâneas que estão aliviando as dificuldades imediatas: produção doméstica, trocas, compartilhamento, comunicação, improviso. A resposta de atitude política dos islandeses é um ótimo exemplo ao mundo – principalmente aos próximos que vierem a falir por aí.

A primeira encruzilha de Obama

O pacote de estímulo à economia é insuficiente e o novo socorro ao sistema financeiro, obscuro. Analistas norte-americanos sugerem que o esforço do presidente para agradar gregos e troianos pode ser má idéia

Nos EUA, epicentro da grande crise econômica, ontem (18/2) foi mais um de más notícias. Provocadas há semanas pelo presidente Obama, que cobrou contrapartidas para o apoio financeiro que solicitam, as indústrias automobilísticas reagiram com mais do mesmo. Querem 39 bilhões de dólares para não falir. Mas planejam usar o dinheiro público para uma “reestruturação” que significa… demitir: 47 mil trabalhadores, em todo o mundo, só no caso da General Motors. A Casa Branca hesita (veja nota abaixo). Os mercados tremem: os novos sinais de incerteza derrubaram as bolsas de valores nos EUA, num movimento que se espalhou pelo mundo. A assinatura, pelo presidente, de medidas de estímulo à economia estimadas em cerca de 800 bilhões de dólares acabou ofuscada.

Textos publicados nos últimos dias, por dois importantes analistas norte-americanos, argumentam que a postura conciliadora adotada por Obama na campanha eleitoral, e nas primeiras semanas de governo, podem levá-lo a perder tempo e apoio preciosos.  Continue reading “A primeira encruzilha de Obama” »

Crise financeira global: quem pagará a conta?

Novos sinais de contágio derrubam o mito da “eficiência” dos mercados e sugerem que, para evitar colapso, pode necessária intervenção estatal maciça. Mas qual seria seu sentido, num ano marcado por eleições presidenciais nos EUA?

A perspectiva de uma nova redução da taxa básica de juros norte-americana (talvez de um ponto percentual) está estimulando uma ligeira alta nas bolsas de valores de todo o mundo, nesta terça-feira (18/3). Nada indica, porém, que os graves desequilíbrios que provocaram uma nova onda de tremores, entre o final da semana passada e ontem, tenham sido sanados. Ao contrário: a decisão mais importante da reunião de emergência, realizada no domingo, pelo banco central dos EUA (o FED), foi autorizar empréstimos de socorro também ao chamado “mercado financeiro das sombras” (shadow financial market), que não está submetido a regulamentação ou controle por instituições públicas. Esta medida, mais o crédito de 30 bilhões de dólares oferecido ao banco JPMorgan/Chase, para que comprasse o banco de investimentos Bear Stearns, revela que o FED está apavorado. O temor principal é que mesmo a quebra de uma instituição financeira de médio parte (como o Bear Stearns) desencadeie um dominó de calotes, com desdobramentos imprevisíveis.

A última série de insolvências começou na quinta-feira passada, (13/3), quando o fundo hipotecário Carlyle Capital Corportion (CCC), um dos mais importantes dos Estados Unidos, entrou em colapso. Na sexta (14/3), o Bear Stearns, quinto maior banco de investimentos do país, deu sinais de que não tinha meios de atender nem a seus compromissos financeiros, nem aos investidores que desejavam resgatar suas aplicações.

Os dois casos são emblemáticos. Ligado ao Grupo Carlyle (um gigante das finanças norte-americanas), e tendo em seu conselho personalidades como o ex-presidente George Bush (o pai), o CCC possuía ativos avaliados em 21 bilhões de dólares. Parte deste patrimônio, porém era constituída de títulos hipotecários que perderam valor, com a onda de inadimplências no setor imobiliário. Em conseqüência, o CCC deixou de honrar, nos últimos dias, compromissos de US$ 400 milhões, não conseguiu chegar a acordos com seus credores e tornou-se ele próprio insolvente.

A dúvida: até onde a espiral de calotes continuará se expandindo?

O redemoinho que devorou o Bear Stearns é ainda mais impressionante. Ainda na sexta-feira, depois do anúncio de suas dificuldades e de uma queda de quase 50% na cotação de suas ações, o valor de mercado do banco era de 3,5 bilhões de dólares. Só sua sede magnífica é avaliada em US$ 1 bi. Mas a instituição foi entregue ao JPMorgan/Chase, no domingo, por apenas US$ 236 milhões. Mesmo assim, e apesar da garantia de US$ 30 bi oferecida pelo FED, “é muito cedo para dizer que foi um bom negócio”, advertiu a revista Economist. Não se sabe o volume das perdas do Bear Stearns com títulos baseados em hipotecas imobiliárias. A dúvida é: até onde a espiral de calotes continuará se expandindo?

Há um agravante: a inadimplência está tornando o crédito, nos EUA, mais escasso e mais caro, como mostrou este blog há alguns dias. A dificuldade de levantar dinheiro pode transformar-se numa bola-de-neve, desencadeando novas falências e restringindo ainda mais as operações financeiras, numa sinergia sinistra. Os problemas têm colocado cada vez mais em evidência o analista turco-norte-americano Nouriel Roubini, que considera necessário incluir, entre os desdobramenos possíveis da crise, o “derretimento do sistema financeiro”.

Num comentário postado quarta-feira, em seu blog, o próprio Roubini sugere que “qualquer solução efetiva para o desarranjo dos mercados de crédito vai requerer envolvimento do Estado em escala muito maior”. É uma constatação de enorme importância poítica. Primeiro, porque enterra um dos grandes mitos da era neoliberal: a suposta capacidade dos mercados para regularem a si próprios e à vida social. Segundo, porque coloca em pauta o sentido da ação a ser adotada contra a crise. Se cabe ao Estado evitar o colapso financeiro, se as finanças não são capazes de salvar a si próprias, então, em teoria, a sociedade teria o direito de debater como a intervenção deve ser feita.

Até o momento, todas as iniciativas estatais adotadas significaram vultosas concessões aos próprios mercados. Na terça-feira (11/3), dois dias apenas antes do colapso do CCC, o presidente do FED Ben Bernanke, havia anunciado a abertura de mais uma linha de crédito — agora de 200 bilhões de dólares — em favor das instituições financeiras. Numa atitude raras vezes adotada por um banco cental, o FED aceitará, como garantia para os empréstimos que concederá, até mesmo bônus imobiliários que sabidamente podem não ser resgatáveis. É a terceira medida semelhante desde agosto só nos EUA. Os bancos centrais europeu e japonês também injetaram centenas de bilhões em suas economias, até o momento sem nenhum resultado efetivo.

“A pior crise desde os anos 1930. Um evento político decisivo”

Martin Wolf, um festejado colunista do diário britânico Financial Times alerta, num comentário publicado esta quarta-feira (12/3): “prejuízos de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões [são os cálculos de Nouriel Roubini sobre os efeitos da crise] descapitalizariam o sistema financeiro. O governo teria de resgatá-lo. O meio mais plausível de fazê-lo seria nacionalizar todos os prejuízos. (…) A decisão teria imensos desdobramentos. Teríamos a pior crise financeira do país desde os anos 1930. Seria um evento político decisivo”.

Você leu corretamente. Nos mercados financeiros globais, já se discute a hipótese de uma mega-operação de salvamento do sistema, algo imensamente superior ao Proer brasileiro, que saneou três bancos com recursos públicos logo após a adoção do Plano Real, em 1994. Por enquanto, porém, o resgate é discutido sem alarde. Não se fala sobre ele nos Parlamentos, nas entrevistas coletivas dos ministros, no horário nobre da TV. Em democracias de baixa intensidade, como as que vivemos, ele seria normalmente apresentado como a única alternativa para evitar o colapso, o remédio amargo que a sociedade será forçada a engolir para evitar um mal pior. Por exemplo uma quebradeira de empresas em larguíssima escala, capaz de paralisar a economia e jogar rapidamente milhões de trabalhadores no desemprego.

O “derretimento” do sistema financeiro teria de fato conseqüências trágicas — mas o socorro aos bancos não é a único remédio contra ele. Tanto nos EUA quanto na Alemanha, a crise dos anos 1930, por exemplo, foi enfrentada principalmente com ações do Estado direcionadas para a geração de emprego e a redistribuição de renda. Em conferência recente, nos EUA (publicada por Le Monde Diplomatique Brasil), a escritora e cientista política Susan George sugeriu, como alternativa para o colapso, um “keynesianismo ambiental”, cujo núcleo seriam obras e iniciativas públicas voltadas para a preservação do planeta (como ferrovias, centrais elétricas eólicas, metrôs, etc). O próprio Martin Wolf lembra, no Financial Times: uma possível saída para a crise atual seria “elevar as rendas nominais” — mesmo se resultasse no “tributo da inflação”, que “em circunstâncias extremas deve ser atraente”.

Uma particularidade no cenário internacional amplia as esperanças de escapar do pensamento único, e imaginar uma solução como a proposta por Susan. Os EUA, epicentro da crise, vivem uma conjuntura quase única: eleições presidenciais coincidem com a sensação de empobrecimento e isolamento internacional. Não seria uma grande oportunidade para questionar a saída ortodoxa de salvar a banca, e propor alternativas capazes de construir outro sistema financeiro?

Brasil começa a debater possível contágio

Ministério da Fazenda e Banco Central têm visões e receitas opostas. A boa notícia: ao contrário do que ocorreu em crises anteriores, a elevação dos juros não é a única alternativa em debate

As ilusões de que o Brasil está imune aos desdobramentos de uma crise financeira global começaram a se dissipar claramente esta semana. Alguns fatos indicam que a ficha está caindo.

>> O ministério da Fazenda adotou, na quarta-feira (12/3), medidas que procuram reduzir a vulnerabilidade externa do país, por meio de mudanças nas regras para a entrada e saída de moedas estrangeiras. As decisões são tímidas e mesmo contraditórias. Sua importância está no fato de indicarem que o governo considera, entre as alternativas para a crise, a hipótese de intervenção pública nos mercados. Como se vê em outra postagem, nos EUA (epicentro da crise), ações não-ortodoxas do Estado já são consideradas por alguns analistas como essenciais para enfrentar a onda de falências.

>> Um dia depois, o Banco Central (BC) divulgou a ata da última reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). O documento revela que o banco também está preocupado com as turbulências externas, mas pensa em resolvê-las com ações de sentido contrário às do ministério da Fazenda. Examina a hipótese de elevar ainda mais os juros reais — que já ocupam, há vários anos, a posição de mais altos do mundo (veja tabelas sobre juros e inflação de dezenas de países na revista The Economist). Ou seja: ao invés de regular os mercados, pretende seduzir os investidores oferecendo-lhes rendimentos ainda maiores. É a mesma receita adotada nas crises cambiais de 1995, 1998-99 e 2002, sob o governo FHC.

>> As medidas adotadas na quarta foram precedidas de um debate no Palácio do Planalto. No domingo (9/3), Lula ouviu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto. Belluzzo é conhecido por sua visão crítica sobre os mercados financeiros internacionais. Sustenta há anos a necessidade de estabelecer controles importantes sobre os mercados de capitais. Delfim também se incomoda com a posição subalterna do Brasil na hierarquia das finanças mundiais. Mas liderou em 2005 — junto com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci — um movimento que procurava enfrentar o problema reduzindo brutalmente as despesas não-financeiras da União. Ao longo dos anos, isso permitiria, segundo ele, resgatar parte importante da dívida, reduzindo a dependência e o pagamento de juros ao capital financeiro.

Como a crise nos EUA e a possibilidade de contágio tendem a se agravar, tudo indica que este debate chegará rapidamente à sociedade. Suas nuances são muito complexas e serão acompanhadas pelo blog. Mas a questão essencial é a que apareceu esta semana. Diante de solavancos que expõem a enorme fragilidade da arquitetura financeira global, a sociedade brasileira tem o direito de propor uma nova relação entre o país e os mercados? Ou a única saída é mais do mesmo, como sugere o Banco Central?

Os novos sinais da crise financeira

Nova queda das bolsas européias e asiáticas revela que persiste o temor de quebradeiras em dominó. Há quem fale em “colapso do sistema de crédito”

As bolsas de valores de boa parte do mundo voltaram a cair hoje. As perdas chegaram a mais de 4% em Xangai, 1,4% em Tóquio, em torno de 1% na Europa. O declínio reflete algo muito mais grave. Novos fatos estão confirmando que as instituições financeiras continuarão a sofrer perdas enormes, com a inadimplência de seus devedores; que, em conseqüência, elas tornarão o crédito mais difícil e mais caro, o que gerará mais quebradeiras, e assim por diante. Se esta espiral coincidir com uma recessão severa, particularmente nos Estados Unidos, estará formado um círculo vicioso gravíssimo, possivelmente inédito desde 1929. Com a economia parada, as perdas financeiras não poderão ser compensadas com novos negócios — o que gerará falências, desemprego e desorganização produtiva.

Eis alguns dos sinais de inadimplência galopante:

> Nas 6 primeiras semanas de 2008, os calotes de empresas norte-americana de primeira linha, do ponto de vista do crédito, ficaram entre 4 e 5bilhões de dólares. O que assusta não é o número, mas o fato de a inadimplência, neste curto período, superar a de todo o ano passado.

> Espera-se que os calotes de empresas menos quotadas (as que emitem os chamados junk-bonds) sejam dez vezes maiores que em 2008.

> Também tem havido perdas nos empréstimos feitos no interior do sistema financeiro, a investidores e fundos de hedge. Ontem, o banco Credit Suisse anunciou perdas de US$ 2,85 bilhões neste segmento. O total das perdas é estimado em US$ 146 bi.

> O encarecimento do crédito já é uma realidade. As empresas norte-americanas estão pagando mais, por empréstimos, do que no início do ano — apesar de, nesse período, a taxa básica de juros, fixada pelo Banco Central (o FED) ter recuado 1,25 pontos percentuais.

O medo do colapso chegou aos grandes diários financeiros. Martin Wolf um dos mais celebrados articulistas do Financial Times, repercutiu ontem (veja nosso clip) as previsões do economista turco-norte-americano Nouriel Roubini, um dos que mais tem se debruçado sobre a crise — e um dos mais pessimistas. Roubini publicou recentemente dois artigos sobre a crise. No primeiro, fala sobre os “12 passos para um desastre financeiro” (elenca, entre outros, a maior crise imobiliária da história dos EUA; calotes em créditos não cobertos por seguros, como os de cartões e financiamento de carros; quebra de seguradoras monoline, especializadas em apenas um tipo de cobertura de riscos; falência de algum grande banco; onda de moratórias de empresas; quebras no chamado “sistema financeiro das sombras” (shadow financial system), responsável por movimentações gigantescas e não coberto por ações dos Bancos Centrais; queda muito forte nas bolsas; e uma espiral de “queima de ativos”, na qual pessoas e empresas endividadas vendem o que têm a qualquer preço, para safar-se de dívidas, provocando afundamento dos preços.

No segundo artigo, Roubini aposta que os Estados Unidos, centro do sistema financeiro internacional, e o FED, não estão preparados para enfrentar a crise — entre outros motivos, porque: a) quase não há mais espaço para reduzir os juros no país (sem provocar uma fuga maciça de investidores); b) o Estado tem poucos meios para intervir no mercado imobiliário, foco das perdas principais; c) o sistema financeiro das sombras tornou-se muito grande e é quase inteiramente opaco.

Mais:

> Ler também, sobre as repercussões da crise no Brasil, a postagem seguinte

> Le Monde Diplomatique acompanha a atual crise financeira há meses. Leia, por exemplo:

No fundo, a desigualdade, de Flávio Dieguez (fevereiro de 2008).
Até onde irá a crise financeira
, de François Chesnais (novermbro de 2007)
O mundo refém das finanças
, de Frederic Lordon (setembro de 2007).