Lula Archive

É o emprego, “cara”…

Curiosamente, Obama, o criador do honroso apelido, faz  uma espécie de mea culpa por demorar quatro anos para entender a mensagem de seu então “colega” -- o trabalhador Luiz Inácio Lula da Silva

Por Delfim Netto, Carta Capital

De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado do seu trabalho. É por isso que a construção de uma sociedade mais “justa” começa pela maximização do nível de emprego.

Não se imagina que em uma organização econômica como a que vivemos todos terão emprego a um só tempo, mesmo nos períodos mais dinâmicos de crescimento. Sempre haverá fases de acomodação do nível da atividade podendo gerar uma taxa de desemprego friccional que a sociedade “justa” tem de socorrer com as políticas sociais do Estado.

Há quatro anos a sociedade americana viu-se envolvida em uma séria crise bancária que em poucas semanas eliminou milhares de empregos no setor financeiro, antecipando a tragédia que em alguns meses suprimiu perto de 15 milhões de postos de trabalho nos demais setores da economia. Países da Comunidade Europeia sofrem hoje de forma dramática o agravamento de uma crise de origens similares, sob ameaça de desmoronamento dos pilares de sua principal construção, o sistema do euro. No mundo inteiro, algo como 30 milhões de trabalhadores não recuperaram os empregos incinerados desde a crise de 2008/2009.

As consequências de ordem política e institucional estão revelando-se na medida em que os cidadãos ocupam as ruas das maiores metrópoles do Ocidente, cobrando respostas das lideranças globais, aparentemente perplexas e atordoadas. É surpreendente, mas reveladora deste estado de coisas, a explicação e o mea culpa atribuídos ao ministro da Economia da Grécia, Michalis Chryssohoidis: “Nossa situação é desesperadora, porque reduzimos de forma bastante drástica a renda das pessoas”. Continue reading “É o emprego, “cara”…” »

Um sopro de vida orgânica no PT

Chamuscado, durante o governo Lula, por sua aproximação desastrosa com o poder, o partido parece ensaiar um ressurgimento, no cenário aberto após a posse de Dilma. O IV Congresso, realizado este fim de semana, seria um sinal?

Por Maria Inês Nassif, em Carta Maior

Não se recomenda reduzir o Congresso do PT, realizado no final de semana, a um mero jogo de cena. A ausência de debates acalorados ou a não explicitação de grandes divergências internas dizem mais do que isso. Ao longo de oito anos de governo, e no início de um terceiro mandato na Presidência, era inevitável que mudanças se produzissem num partido que sempre funcionou como uma frente de tendências de esquerda, setores sindicais e grupos ligados à Igreja Progressista.

O PT passa por um processo de mudança que se iniciou em 1998, após a terceira derrota de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência. Ao longo do tempo, sofreu defecções próprias de um partido que se consolidou na oposição e como partido de esquerda que, uma vez no poder, não teria condições de governabilidade se não optasse por uma política de alianças mais ampla e maleável. Continue reading “Um sopro de vida orgânica no PT” »

Celso Amorim vê ocaso da velha ordem mundial

A Velha Ordem está morrendo. Viva a Nova! Já não será possível que um grupo de potências ocidentais dite a vontade do mundo. Por Celso Amorim. Foto: Ed Jones/AFP 

Ex-ministro analisa mais recente reunião do Brics e ironiza setores da mídia que buscam dividir o grupo – porque preferiam mundo imperial… Por Celso Amorim, Carta Capital. Foto: Ed Jones/AFP

Os líderes (no caso do Brasil, a líder) dos cinco países emergentes que, com a adesão da África do Sul, hoje compõem os BRICS reuniram-se em Sanya, na China, em 14 de abril último. A entrada da África do Sul é bem-vinda por trazer a África para esse grupo, cuja crescente importância no cenário internacional já não é mais contestada. Evidentemente, os pessimistas profissionais continuam a apontar diferenças de interesses entre os membros dos BRICS, traduzindo, em verdade, seu desconforto com a criação desse grande espaço de cooperação entre países até há pouco considerados subdesenvolvidos. Continue reading “Celso Amorim vê ocaso da velha ordem mundial” »

O Brasil de Lula e o fatalismo dos fracos

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Há uma peça solta nas principais análises sobre o legado do ex-presidente. Elas concluem cedo demais que a massa dos subalternos permanecerá passiva… Por Ruy Braga, no Blog da Boitempo

Este mês de abril, Perry Anderson publicou um longo artigo sobre “O Brasil de Lula” na prestigiosa London Review of Books. Vale a pena conferir. Demonstrando grande familiaridade com as principais questões nacionais, o historiador inglês soube providenciar para o mundo anglófono uma útil e exitosa síntese de nossas recentes diatribes, especialmente, aquelas relacionadas ao período do “Mensalão”. Por um lado, afora detalhes que desconhecia sobre a história do projeto editorial da revista Piauí, as informações de nossa cena política são, como não poderia deixar de ser, largamente conhecidas. Por outro, o que realmente me chamou a atenção neste artigo é a conclusão contida no balanço, igualmente bem-sucedido, das principais interpretações a respeito da hegemonia lulista.

Ao longo de boa parte do texto, somos convidados a comparar três das mais paradigmáticas interpretações do “lulismo”: a hipótese do “subperonismo”, avançada por FHC, a hipótese do, digamos assim, “neofordismo” (devido à comparação das duas presidências de Lula àquelas de F. D. Roosevelt), sustentada por André Singer e a hipótese da “hegemonia às avessas”, desenvolvida por Chico de Oliveira. Em suma, se para FHC, Lula encarna, pura e simplesmente, a velha tradição populista latino-americana da manipulação das massas pela liderança carismática, barganhando a adesão popular por meio da caridade pública e da adulação, tanto para Singer, quanto para Oliveira, o lulismo representaria, ao contrário, um fenômeno social inovador. Vejamos…

Singer argumenta que o lulismo seria a expressão ideológica de uma fração de classe social, o subproletariado, que, após o período de redemocratização do país, mover-se-ia no campo político tendo em vista duas preocupações principais: a esperança de que o Estado possa diminuir a desigualdade social e o medo de que os movimentos sociais possam criar desordem política. Chico, ao contrário, entende que a chave-explicativa para a hegemonia lulista deve ser buscada na combinação do atual processo econômico da globalização financeira com o papel político deletério que o “transformismo” da alta burocracia sindical passou a desempenhar no país ao se inserir no jogo pesado do investimento capitalista, sobretudo, por intermédio do controle político, potencializado pela eleição de Lula em 2002, dos fundos salariais geridos como fundos de investimento.

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Os cem dias de Dilma e o futuro

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Luís Nassif avalia que os acenos da presidente aos conservadores são tática necessária. Mas frisa: o grande desafio será desarmar a armadilha dos mercados financeiros

O modelo Lula

Para analisar os cem dias de Dilma, é necessário entender o projeto de país de Lula.

Não é um projeto teórico, fruto de elucubrações intelectuais. Mas algo que sai da própria formação política de Lula e ganha corpo especialmente quando pega as rédeas do governo – no segundo mandato.

A construção de um país não é algo linear. Ainda nos anos 90 insisti muito na visão de “movimento pendular” para explicar a dialética do desenvolvimento. A ausência dessa dialética é a principal responsável pelo envelhecimento de regimes e de países.

Cria-se um movimento em determinada direção – digamos o neoliberalismo avassalador do início e do fim do século 20. Esse movimento surge em contraposição ao centralismo do período anterior, corrige vícios e consolida novos vitoriosos. Continue reading “Os cem dias de Dilma e o futuro” »

O Brasil e a crise em Portugal

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Leis nacionais reduzirão apoio a algo apenas simbólico, mas visita de Lula e Dilma foi importante.  Pressões da mídia e dos mercados contra país europeu ignoram circunstâncias históricas

Por Mauricio Santoro, Todos os Fogos o Fogo

A viagem de Dilma e Lula a Portugal foi relegada para segundo plano em função da morte do ex-vice-presidente José de Alencar. É compreensível, mas foi uma pena, porque perdeu-se boa oportunidade para debater as relações entre o Brasil e sua antiga metrópole colonial, num momento em que a economia lusitana enfrenta uma crise séria que pode resultar em moratória, e que lembra muito as situações difíceis vividos pelos brasileiros nas décadas de 1989-90.

Portugal tem longa história de instabilidade financeira. De 1800 até hoje foram oito moratórias e a gestão da dívida pública foi um dos fatores decisivos para a instalação de António Salazar como ditador do país por mais de 40 anos. Atualmente, os portugueses compartilham com irlandeses, italianos, gregos e espanhóis a condição de economias problemáticas na União Européia, com a dificuldade de ajustar-se ao euro e em controlar os gastos públicos – a dívida portuguesa é de aproximadamente 100% do PIB. O gráfico abaixo o situa com relação aos outros “PIIGS”.

Sem a possibilidade de desvalorizar o euro, os custos do ajuste tornam-se ainda maiores e incluem o receituário tradicional de redução de salários do funcionalismo, privatizações e cortes em serviços públicos. São receitas amargas que criaram impasses políticos em Portugal. Em um ano o parlamento recusou quatro pacotes econômicos e há poucos dias o primeiro-ministro socialista José Sócrates renunciou após outro fracasso. Os partidos não foram capazes de articular um pacto nacional para superar a crise e o que aparece no horizonte é a possibilidade de recorrer a um auxílio internacional de emergência, combinando fundos da União Européia e do FMI.

O governo português solicitou ajuda ao Brasil, pedindo as autoridades brasileiras que comprassem títulos da dívida pública lusitana, num esforço de convencer os mercados financeiros da seriedade do compromisso de Lisboa com as reformas econômicas (Hugo Chávez fez algo assim quando Néstor Kirchner renegociou a dívida externa da Argentina). A presidente Dilma declinou, observando que as leis brasileiras só permitem ao Banco Central comprar papéis internacionais de classificação AAA, e as agências de risco já rebaixaram Portugal para patamares inferiores. Realpolitik. Estamos longe do tempo (anos 1950) em que um chanceler brasileiro dizia que as relações entre os dois países não eram políticas, mas “um caso de família”. Continue reading “O Brasil e a crise em Portugal” »

As consequências de um voto

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Ex-chanceler critica com sutileza posição do governo Dilma frente ao Irã e sugere: nova postura da diplomacia pode enfraquecer projeção internacional do Brasil

Por Celso Amorim, na CartaCapital

No dia 24 de março, o Brasil apoiou a resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que instituiu um Relator Especial para investigar a situação no Irã. Esse tipo de relator sobre um país específico, do ponto de vista simbólico, representa o nível mais alto de questionamento sobre o estado dos direitos humanos. Para se ter uma ideia, apenas oito paí­ses estão sujeitos a esse tipo de escrutínio.

Se excluirmos o Haiti, cuja inclusão se deve sobretudo aos efeitos de catástrofes naturais e contou com o apoio do próprio governo de Porto Príncipe, todos os demais (Camboja, Mianmar, Somália etc.) foram palco de tragédias humanitárias graves. São em geral países muito pobres, ditos de menor desenvolvimento relativo, em que o Estado, seja por incapacidade (Burundi, Haiti), seja em razão de sistemas políticos autocráticos (Coreia do Norte, Myanmar), não atende minimamente às necessidades dos seus cidadãos.

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Dilma: eficaz, porém sem ousadia?

Luís Nassif sugere: presença da presidente no aniversário da “Folha” revela governo hábil, mas sem pique para manter diálogo aberto por Lula com os movimentos sociais e a nova cultura política

As dúvidas sobre a estratégia política de Dilma

(Por Luís Nassif)

Vamos tentar entender um pouco essa questão da presença da presidente Dilma Rousseff nos 90 anos da Folha.

O pós eleições mostrou claramente que o único polo remanescente de oposição radical reside em uma dobradinha mídia-PSDB paulista explorando preconceitos contra o governo Lula. Foram cinco anos de pauleira que não pouparam ninguém, nem Lula, nem Dilma, nem quem ousasse ficar na frente do blitzkrieg midiático.

A motivação da velha mídia não é ideológica. Busca posicionar-se politicamente, recuperar influência em um quadro de profundas transformações tecnológicas, políticas e sociais no decorrer do qual perdeu o cetro de poder político máximo do país.

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Wikileaks: Lula desafia mídia a defender liberdade de expressão

“É engraçado: prenderam o rapaz que denunciava a diplomacia americana e não vejo nenhum jornal defendê-lo”

A repercussão internacional em torno da prisão de John Assange ganhará, nas próximas horas, um novo ingrediente: a fala de Lula, em defesa do fundador do Wikileaks, na manhã desta quinta (9/12). Ao discursar, de improviso, numa solenidade de avaliação dos resultados do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente defendeu Assange de forma aberta e eloquente. Aproveitou para lançar farpas contra dois dos seus principais adversários, durante oito anos de governo: a diplomacia norte-americana e a mídia brasileira.

O cutucão contra Washington está implícito no próprio posicionamento de Lula, em defesa de um jornalistas que o Departamento de Estado quer ver preso e alguns congressistas norte-americanos, morto. Mas Lula foi além. Ironizou “a diplomacia que parecia a mais certa do mundo”, dizendo que “só falta saber se puseram cartazes como no tempo do faroeste, com a foto do rapaz e o ‘procura-se, vivo ou morto’”. Emendou: “se algum dos meus embaixadores não tiver nada que escrever, não escreva bobagens. Passe em branco a mensagem”.

Já as empresas que controlam os meios de comunicação brasileiros foram tratadas com ironia. “Agora, eu não vejo ninguém defender a liberdade de imprensa. Prenderam o rapaz que denunciava os podres da diplomacia americana e eu não tou vendo nenhum protesto contra [o ataque a] a liberdade de expressão. É engração, não tem nada. Nada”. Ao final deixou clara sua posição: “Pode botar no Blog do Planalto o primeiro protesto (…) Wikileaks, minha solidariedade pela divulgação das coisas e meu protesto contra [o ataque a] a liberdade de expressão”

Lula-Roussef: uma estreia

Nem dependência, nem conflito. A primeira semana após as eleições mostrou que o presidente e sua sucessora podem compor, a partir de 2011, uma inovadora dobradinha política

Nunca se sabe quanto vai durar. Mas Lula da Silva e Dilma Roussef responderam à altura, esta semana, a quem insistia em ver a relação política que mantêm com precária, de submissão ou tendente ao conflito. Em poucos dias, eles dissiparam com fineza uma agenda hostil, que sobrevivera aos conflitos da campanha; introduziram no debate nacional três temas de relevo (negociação do salário mínimo com as centrais sindicais, volta da CPMF e reforma política); e dividiram a oposição.

De quebra, sinalizaram que, a partir de 2011, a presidente no posto e o ex-presidente podem estabelecer uma “dobradinha” inédita na história da República. Um governa, com perfil alto. O outro, livre dos ônus do governo, sente-se à vontade para debater, com a opinião pública, os grandes temas de que os chefes de Estado são em geral privados, pelos compromissos políticos que são levados a assumir.

A novidade começou a ser construída na segunda-feira, menos de 24 horas após a vitória de Dilma nas urnas. Surpreendentemente, para quem enfrentou seis meses de campanha árdua e a oposição quase unânime dos meios de comunicação tradicional, a presidente provocou duas entrevistas em programas de TV.

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