jornalismo Archive

Quando a mídia quer ser poder paralelo

A pretexto de ser “sentinela da sociedade”, jornais frequentemente defenderam interesses dos poderosos, e participaram de articulações golpistas

Por Venício A. de Lima*, no Observatório da Imprensa

No clássico Four Theories of the Press, de Siebert, Peterson e Schramm – consequência indireta do longo trabalho da Hutchins Commission, originalmente publicado no auge da Guerra Fria (University of Illinois Press, 1956) –, uma das funções descritas para a imprensa na chamada “teoria libertária” era exercer o papel de “sentinela” da liberdade.

Em outro livro, também clássico, que teve uma pouco conhecida tradução brasileira (Os Meios de Comunicação e a Sociedade Moderna, Edições GRD, 1966), Peterson, Jensen e Rivers assim descrevem a função:

    “Os libertários geralmente consideravam o governo como o inimigo mais temível e tradicional da liberdade; e, mesmo nas sociedades democráticas, os que exercem funções governamentais poderiam usar caprichosa e perigosamente o poder. Portanto, os libertários atribuíam à imprensa a tarefa de inspecionar constantemente o governo, de fazer o papel da sentinela, chamando a atenção do público sempre que as liberdades pessoais estivessem perigando” (p. 151-152). Continue reading “Quando a mídia quer ser poder paralelo” »

Wikipedia, jornalismo e o neojornalismo

Em vez de gerir grandes pólos de produção de conteúdo, as empresas de informação precisam desenvolver novas maneiras de fazer curadoria e gestão de conteúdo produzido por centenas e milhares de provedores

Por Moxphere

Uma informação dada pelo Mediashift mostra que foram necessários 660 segundos para que a Wikipedia tivesse o seu primeiro verbete sobre o tsunami no Japão, em japonês. Vinte e um minutos mais tarde, já havia uma versão em inglês do mesmo verbete. O New York Times, titã e marca famosíssima do jornalismo mundial, levou 180 minutos para dar a primeira nota em seu site. A Wikipedia, desde sua origem, se propôs a não ser uma ferramenta jornalística, tentando se dedicar à sua vocação enciclopédica. Contudo, a natureza de sua existência baseada no crowdsource a obriga a aceitar papeis mesmo contra sua vontade. Hoje, o site criado por Jimmy Wales, é indiscutivelmente mais jornalístico do que muitos dos players da mídia tradicional.

Na verdade, quando a Wikipedia foi pensada, há cerca de uma década, raríssimas pessoas poderiam imaginar que a produção de conteúdo por parte dos usuários transformaria-se num avassalador provedor da web. O sucesso da empreitada tornou-se um desafio, uma vez que o crowdsource não pára de dar mostras que está deixando de ser uma opção para se transformar na regra. Em vez de gerir grandes pólos de produção de conteúdo, as empresas de informação precisam desenvolver novas maneiras de fazer curadoria e gestão de conteúdo produzido por centenas e milhares de provedores. A lógica da coisa segue a mesma – tentar oferecer a informação mais precisa – mas mudou o viés. Continue reading “Wikipedia, jornalismo e o neojornalismo” »

Quando Caco Barcelos enfrentou Eliane Cantanhede

Em trecho ocultado pela Globo News, jornalista questiona o denuncismo da imprensa, ligeireza e a falta de escrúpulos em se destruir a honra alheia
Por Maurício Caleiro, Cinema & Outras Artes
Trecho censurado do programa da Globo News “Em Pauta”, disponibilizado por @amanditas1904 no You Tube, causou um alvoroço nas redes sociais no último final de semana.

No segmento – que não foi ao ar nas reprises do programa no canal a cabo -, o jornalista Caco Barcelos, instado a responder a uma pergunta da colunista Eliane Cantanhêde, questiona o denuncismo da imprensa, criticando o que chamou de “jornalismo declaratório” – a ligeireza e a falta de escrúpulos em se destruir a honra alheia baseadas, muitas vezes, tão-somente na declaração de um acusador, sem aprofundar investigações, inclusive em relação à qualificação do denunciante (veja aqui). Qualquer coincidência com o que ora vemos não é mera coincidência. Continue reading “Quando Caco Barcelos enfrentou Eliane Cantanhede” »

A imperdível volta de Fernando Morais a Cuba

Aos 65 anos, o escritor mineiro atinge seu melhor nível formal, numa narrativa cinematográfica – além de impagáveis incursões ao humor, como na caracterização de García Márquez como dublê de diplomata internacional

Por Maurício Caleiro de Cinema & Outras Artes

É uma leitura fascinante a que nos oferece o último livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras).

A pretexto de retratar a infiltração de agentes castristas entre as organizações terroristas mantidas, em Miami, por cubanos no exílio, o livro oferece um saboroso painel humano e uma introdução realista ao complicado xadrez geopolítico jogado por Cuba e EUA nos estertores da Guerra Fria.

O resultado é um exame aguçado das relações entre o país caribenho e a então maior potência mundial durante o chamado “período especial”, nos anos 90 – em que, ante o colapso soviético, Cuba teve de se reinventar como atração turística internacional para salvar sua economia.

Apoiado em farta documentação, a obra reconstitui a escalada da violência anti-castrista, baseada em violação sistemática do espaço aéreo cubano (para fins propagandísticos ou por mera provocação) e em ataques terroristas a alvos turísticos, visando espalhar o pânico e minar o fluxo de capital estrangeiro na ilha – tudo sob o silêncio cúmplice dos EUA. (Visto sob a perspectiva histórica pós-11 de setembro, o alerta de Fidel Castro a Clinton de que tais ataques tinham de ser combatidos, pois no futuro qualquer país poderia ser vítima deles, soa não só premonitório, mas como mais uma evidência da leniência dos EUA com sua própria segurança interna).

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O jornalismo vai às bases de dados

Professora Suzana Barbosa (UFBA) sustenta: sociedades ganharão muito, se jornalistas se debruçarem sobre certos números — e o que eles relam a respeito das relações sociais
Por Amanda Lopes, Jornalismo Digital

Milhares de documentos chegaram às mãos dos jornalistas no meio do ano passado. Eram informações bombásticas, vazadas pelo site da organzinação Wikileaks, mas elas eram realmente milhares. Resultado: era preciso lidar com aquele volume de informações e buscar maneiras de usá-las da melhor forma.

O caso do Wikileaks evidenciou o uso dos bancos de dados no jornalismo, algo que está crescendo e representa a “quarta geração” do jornalismo digital para a professora Suzana Barbosa (@suzanabarbosa), do departamento de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Para ela, ainda há muito o que se explorar “em relação à apuração, à descoberta de informações contidas em bases de dados e que podem fazer a diferença em reportagens”.

Suzana estuda o jornalismo digital em bancos de dados a partir de como isso ajuda na construção e gestão de produtos jornalísticos, além das formas de apresentação desse conteúdo.

O Brasil está preparado para isso? Temos bases de dados livres para fazer esse tipo de trabalho? Confira a íntegra da entrevista da professora Suzana: Continue reading “O jornalismo vai às bases de dados” »

Na era das redes sociais, novo papel do jornalismo

Joel Simon é diretor do CPJ

Por que produzir informações relevantes sobre a sociedade tornou-se mais necessário que nunca. Como profissionais e blogueiros podem ser complementares. Entrevista com diretor do Comitê de Proteção dos Jornalistas

Por Sandra Petersmann, na Deutsche Welle

Às vésperas do Global Media Forum, que se realizou em Bonn, entre 20 e 22/06, a Deutsche Welle conversou com Joel Simon, o diretor-executivo do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ) – organização internacional representada este ano na conferência em Bonn, cujo tema principal é “Direitos humanos e globalização: um desafio para a mídia”.

Qual é a sua definição de jornalista?

Joel Simon: Os jornalistas existem para colher e disseminar informação de relevância para a população. Há jornalistas profissionais que fazem isso, e há pessoas que fazem isso como cidadãos. Isso vai se modificando com o tempo.

As novas tecnologias garantiram que nos dias de hoje existam um número nunca visto de jornalistas cidadãos. Na Alemanha, o jornalismo não é profissão para a qual se precise de um diploma. Qualquer um pode ser um jornalista. Nós [do Comitê de Proteção aos Jornalistas] defendemos os direitos dos jornalistas profissionais, dos freelancers e dos jornalistas cidadãos. Continue reading “Na era das redes sociais, novo papel do jornalismo” »

Jornalismo na era do remix

Ivana Bentes sustenta: as novas linguagens e tecnologias não ameaçam a profissão. Elas exigem, ao contrário, profissionais qualificados capazes de atuar em distintas mídias e, frequentemente, de inventar suas próprias ocupações. Entrevista ao IHU Online

Duas questões atuais e que se atravessam: o futuro do jornalismo e a questão dos direitos autorais no Brasil. Para a professora Ivana Bentes, que concedeu a entrevista a seguir pessoalmente e por telefone à IHU On-Line, esses dois pontos ainda precisam encontrar uma forma de se desvincular do corporativismo que, até então, os domina. No caso do jornalismo, ela diz que o futuro da profissão “tem que se construído a partir dessa atual mudança de mentalidade em relação às corporações e ao tipo de democracia que queremos. O futuro do jornalismo é uma construção coletiva”.

Ao falar sobre a questão dos direitos autorais, Ivana volta à polêmica em torno da retirada do selo da licença Creative Commons do sítio do Ministério da Cultura e explica que o que está em jogo com esse símbolo é uma disputa por modelos de cultura a serem adotados. “O que nós exigimos é que a ministra da cultura se posicione sobre qual modelo que o MinC vai levar adiante daqui para a frente. Que economia criativa é essa? É a da rede horizontalizada da produção cultural ou é a da indústria cultural de poucos?”, criticou e questionou.

Ivana Bentes é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição em que fez mestrado e doutorado na área da Comunicação e, atualmente, é professora e Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ.

Confira, a seguir, entrevista.

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Vinte anos de protelações

Por que é tão nociva a atitude do Congresso Nacional, que, em benefício dos barões da mídia, recusa-se a cumprir a Constituição e a regulamentar as Comunicações no Brasil. Por Venício Lima, no Observatório da Imprensa

Em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, realizada no último dia 6 de março, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, afirmou que o projeto para um marco regulatório do setor “se centrará em modernizar a legislação defasada e regulamentar os artigos da Constituição que tratam da comunicação” [ver aqui matéria da Agência Câmara].

Regulamentar os artigos da Constituição já seria um avanço importante.

Decorridas duas décadas e mais de dois anos da promulgação da Constituição de 5 de outubro de 1988, a inoperância do Congresso Nacional em relação à regulação do Capítulo V (“Da Comunicação Social”), Título VIII (“Da Ordem Social), já mereceu, inclusive, uma Ação de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO), que aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (ver, neste Observatório, “Três boas notícias“).

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Outras Palavras busca estagiári@

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Para acompanhar o debate em torno do novo Código Florestal e informar sobre ele. Não há remuneração, mas se aprende muito

Um projeto de lei que altera o Código Florestal brasileiro irá a votação na Câmara dos Deputados em curto prazo. Há riscos reais de retrocesso, com aprovação de uma lei mais complacente com o desmatamento e outras formas de ataque à natureza.

Outras Palavras, que tem acompanhado o tema (ver aqui e aqui), quer abordá-lo de forma mais constante e profunda. Para isso, abre vaga de estágio. Não há contrapartida financeira, mas oportunidade de seguir um assunto instigante, praticar técnicas avançadas de pesquisa em mídias eletrônicas, ter acesso a um conjunto de fontes e praticar boa redação jornalística.

Para candidatar-se, basta preencher um rápido formulário. Terão preferência estudantes de qualquer curso superior, mas outr@s interessad@s poderão igualmente se candidatar. Conta pontos ter algum conhecimento sobre questões ambientais e, se possível, a respeito do próprio debate em torno do código. Facilidade para redigir de modo claro é bastante desejável.

Nosso objetivo é que a pessoa escolhida acompanhe — em especial por meio das mídias horizontais e de entrevistas telefônicas ou presenciais — os diversos movimentos que antecedem a votação no Congresso: pronunciamentos e articulações da sociedade civil, debates no Congresso Nacional, mobilizações. Este esforço deverá resultar na produção de posts para este blog e, eventualmente, revista eletrônica. O trabalho será apoiado pela equipe do site e por colaboradores (entre eles, André Sampaio, da ONG Sociedade Chauá).

Se estiver em São Paulo, @ estagiári@ poderá trabalhar a partir de nossa redação, onde será orientado sobre métodos de pesquisa, acessará as ferramentas avançadas que o site desenvolveu para buscas eletrônicas e terá seu trabalho editado e comentado. A iniciativa servirá de piloto para a concretização de um dos objetivos de Outras Palavras em 2011. Queremos estimular a formação de uma rede de colaboradores e blogueiros, com distintos graus de experiência, para articular a horizontalidade e democracia das novas mídias com as melhores técnicas do jornalismo, hoje abandonadas pela mídia tradicional.

Ambiente e Biodiversidade: Outras Palavras procura colaborador@

Não há remuneração financeira, mas oportunidade de produzir material de qualidade, sobre tema crucial — embora negligenciado pela mídia

Com dois textos sobre o novo Código Ambiental, em debate no Congresso Nacional, Outras Palavras retoma hoje sua cobertura das grandes questões nacionais. Uma das matérias é reprodução de entrevista com o deputado Fernando Marroni (PT-RS), publicada originalmente pelo excelente site Sul21. Na outra, informamos sobre a janela de oportunidade que se abriu subitamente nos últimos dias, para evitar a aprovação dos aspectos retrógrados do Código, preservando ao mesmo tempo seus avanços.

O programa de trabalho do Outras Palavras para 2011 tem, entre seus pontos centrais. A produção de um noticiário alternativo ao da mídia comercial. Significa ir além da simples crítica à mídia de mercado, ou “PIG”. Se os “jornalões” omitem ou distorcem fatos relevantes da vida nacional e internacional, não basta denunciar este comportamento. É preciso assumir a responsabilidade de assegurar o direito à informação e comunicação. Ao fazê-lo, é possível estabelecer uma nova relação com o leitor: tirá-lo da condição de espectador passivo, mostrar-lhe que a realidade é algo permanementente instável e sujeito à ação transformadora.

Queremos participar deste esforço. Estamos convencidos de que surgiram condições inéditas para isso. A comunicação horizontal continua a se expandir. Para cada tema omitido ou distorcido pela velha mídia, é possível encontrar fontes alternativas de informação, produzidas pela própria cidadania. Elas são múltiplas: dos sites de publicações alternativas ou centros de estudo a posts, comentários, vídeos e áudios dispersos em blogs ou redes sociais.

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