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Em meio à crise, cresce comércio de armas

Instituto sueco compara gastos bélicos com desamparo da infância e chega a conclusões alarmantes. Despesas ampliadas inclusive na Europa, em meio à onda de cortes em serviços públicos

Pela redação da agência Prensa Latina

Com a despesa mundial em armamentos durante 2010, seria possível manter 212 milhões de crianças de aproximadamente um ano, ao custo médio necessário em um país desenvolvido europeu. A manutenção estimada por criança ali, segundo fontes extraoficiais, é de 4715 dólares ao ano, enquanto o investimento em meios bélicos aumentou em 2010, globalmente, a um 1,63 trilhão de dólares.

Nove milhões de crianças morrem de fome anualmente no mundo, e só o protótipo do superavião britânico não tripulado Taranis acumulou um custo de 215 milhões de dólares, que bastariam para alimentar 45.599 crianças ao ano.

Nos países do sul poderiam se alimentar muitos mais crianças, se só se tratasse de cobrir as necessidades básicas para não morrer de inanição e de doenças previsíveis ou curáveis. Continue reading “Em meio à crise, cresce comércio de armas” »

Afeganistão, retirada incerta

Crescem nos EUA as críticas à guerra — mas  republicanos sugerem outra temporada de combate, e o debate sobre o tema  fica cada vez mais intenso

Por Jim Lobe*, na Envolverde-IPS

Faltando apenas duas semanas para a prevista retirada das forças dos Estados Unidos do Afeganistão, o debate sobre o ritmo e a escala dessa retirada fica cada vez mais intenso. Por um lado, o Departamento da Defesa – apoiado por destacados neoconservadores (a ala mais belicista de Washington) e outros “falcões” – insiste em manter a estratégia da ofensiva (“surge”), que já dura 18 meses e para a qual o contingente de soldados que combatem o movimento islâmico Talibã foi ampliado em 30 mil soldados.

Qualquer coisa mais do que uma “modesta” retirada de uns poucos milhares, dos quase cem mil solados e fuzileiros navais destacados nesse país da Ásia central, colocaria em risco tudo o que se conseguiu até agora, alertam. “Espero que a retirada seja muito pequena”, disse ao jornal Financial Times, esta semana, o senador John McCain, do Partido Republicano e ex-candidato presidencial. “Espero que sejam três mil. Precisamos de outra temporada de combate” contra o Talibã, afirmou. Continue reading “Afeganistão, retirada incerta” »

Israel contra a reconciliação palestina

Num caso escandaloso de chantagem, Telavive sequestra fundos e tenta bloquear caminho para a paz. Mas, após décadas, árabes parecem prontos a reconquistar apoio internacional e ofensiva diplomática

Por Mel Frykberg, Envolverde

Israel atacou o acordo alcançado no Cairo pelos dois principais partidos palestinos após quatro anos de conflitos internos, e ameaçou impor mais sanções econômicas, além do congelamento de impostos arrecadados pelo Estado judeu em nome de seu vizinho. “Acordamos formar um governo composto por figuras independentes que comecem a preparar as eleições presidenciais e parlamentares”, disse na semana passada Azzam al-Ahmad, negociador-chefe do partido Fatah, de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

“As eleições serão organizadas dentro de alguns meses”, disse Azzam, acrescentando que a Liga Árabe supervisionará a execução do acordo. “Nossa divisão é uma oportunidade para os israelenses. Hoje viramos a página”, disse Musa Abu Marzuk, autoridade do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). O acordo assinado no dia 27 de abril tem cinco pontos e incluem forças de segurança combinadas e um governo com “figuras nacionalistas”, destacou Mahmoud al-Zahar, alto representante do Hamas que participou das conversações. Além disso, os dois partidos libertarão seus presos mutuamente. Continue reading “Israel contra a reconciliação palestina” »

Stuxnet: a era da guerra cibernética começou?

Como age o vírus de computador que atingiu as ultracentrífugas de urânio do Irã. Por que muitos exércitos já se preparam para uma nova geração de conflitos

Por Philippe Rivière, no Le Monde Diplomatique

O início deste ano, Dmitry Rogozin, embaixador russo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), causou polêmica ao pedir a abertura de uma investigação sobre o Stuxnet, vírus de computador que atacou as instalações nucleares iranianas nos últimos meses. O vírus, diz ele, poderia levar a uma explosão termonuclear em Bushehr, central de produção de energia atômica no sul do país.

Essa é uma hipótese “virtual e completamente infundada”, retruca o especialista em segurança, o alemão Ralph Langner, que em setembro realizou o primeiro estudo detalhado sobre o vírus. “Em primeiro lugar, o Stuxnet não tinha Bushehr como alvo.”Na verdade, a área afetada foi Natanz, que tem 7 mil centrífugas fazendo enriquecimento de urânio. “Em segundo lugar, mesmo neste caso, ele não conseguiria interagir com os sistemas do circuito primário[circuito de água que fica em contato com a radioatividade].

Os responsáveis pelo vírus tiveram tempo (seu código fonte, com cerca de 15 mil linhas, teria exigido, segundo estimativas, dez “anos-engenheiro” de trabalho) e conhecimentos de ponta (o worm teria usado, para realizar sua transmissão, quatro vulnerabilidades inéditas do sistema operacional Windows). “A análise do código indica claramente que o Stuxnet não pretendia enviar uma mensagem ou demonstrar um conceito”, escreve Langner, “tratava-se de destruir alvos, com uma determinação de estilo militar”.

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Guerras, terror contra civis e “danos colaterais”

Dados estatísticos revelam que os conflitos contemporâneos eliminam uma proporção cada vez maior de civis. Para evitar condenações, os Estados refugiam-se na suposta ausência da intenção de matar…

Reginaldo Nasser, em Carta Maior

Aumenta a cada dia o número de civis que morrem nas guerras e são enquadrados na rubrica “danos colaterais”. No inicio do século 20, apenas 5% das vítimas de guerra eram civis. Na Primeira Guerra Mundial, 15%. Na Segunda Guerra Mundial o valor saltou para uma taxa de mortalidade de 65%; na década de noventa, 75% das mortes da guerra eram civis. Hoje, a cifra atinge os 90%, sendo que a maioria é composta por mulheres e crianças.

Quando um Estado realiza um ataque em outro país e, previsivelmente, mata não-combatentes, pode ser isento de culpabilidade simplesmente porque não manifestou a intenção de matar inocentes? O jurista Richard Goldstone, que presidiu uma comissão nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para apurar violações em decorrência dos ataques de Israel à Faixa de Gaza, em 2009, escreveu que tanto as forças militares israelenses, como o grupo Hamas, eram culpados de crimes de guerra no conflito. Por volta de 1.400 palestinos (900 civis) e 13 israelenses (10 soldados e 3 civis) morreram no mesmo período. Recentemente, Goldstone escreveu, em uma coluna do Washington Post (1º/4/2011) : “sabemos atualmente muito mais sobre o que aconteceu em Gaza do que no momento em que fizemos o relatório … Se eu soubesse o que sei agora, o  texto teria sido diferente”. Pois a comissão de inquérito não tem, de acordo com Goldstone, provas para explicar as circunstâncias em que os civis em Gaza foram alvo, o que, provavelmente, teria influenciado a avaliação sobre a “intencionalidade dos crimes de guerra”.

Um ponto-chave no artigo e no amplo debate desencadeado pelo relatório Goldstone é a questão da intenção criminosa. Nos julgamentos de crimes de guerra, a acusação deve provar não só que o arguido cometeu um delito, mas também que manifestou a intenção, ou estava plenamente ciente das consequências do que poderia resultar. Essas ações são tradicionalmente avaliadas em duas categorias: ação intencional contra civis por parte de militares, o que caracterizaria “crimes de guerra”; ou morte não intencional de civis no decurso de operações militares que é muitas vezes referida como “danos colaterais”. São os danos colaterais, e não os crimes de guerra, que constituem, atualmente, a maioria das mortes de civis nas guerras.

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América Latina: rumo a uma corrida armamentista?

1163 300x221 Dispara o gasto militar na América Latina

Embora ainda baixos, se comparados aos de outras regiões do mundo, os gastos militares cresceram mais que em qualquer outra parte, em 2010. Brasil, Chile, Colômbia e Peru puxaram o aumento. Por Thaliff Deen, da Envolverde-IPS

A América Latina registrou em 2010 o maior aumento de gasto militar, deixando para trás nessa área Oriente Médio e Europa, segundo estudo divulgado Instituto Internacional de Estocolmo de Pesquisa para a Paz (Sipri). O aumento em termos reais foi de 5,8% para a América Latina, contra 5,2% para África, 2,8% para América do Norte, 2,5% para Oriente Médio e 1,4% para Ásia. Na Europa, única região a registrar queda, o gasto militar baixou 2,8% em termos reais no ano passado, em comparação com 2009.

Os mais gastadores da América Latina são Brasil, Chile, Colômbia e Peru. “No Brasil e no Chile, o aumento do gasto militar está associado principalmente às aspirações de uma presença regional e internacional mais forte, mas sem ser, necessariamente, o reflexo de um poderio militar em competição”, disse à IPS a pesquisadora Carina Solmirano, especialista em América Latina do projeto de Gasto Militar do Sipri.

De todo modo, no ano passado a América Latina gastou apenas US$ 63,3 bilhões em questões militares, contra US$ 721 bilhões da América do Norte, US$ 382 bilhões da Europa, US$ 317 bilhões da Ásia, US$ 111 bilhões do Oriente Médio e US$ 30 bilhões da África, de acordo com o Sipri.

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Incrível: como os Estados Unidos querem invadir as redes sociais

Sistema controlado pelo exército criará falsos perfis para disseminar propaganda pró-Washington e tentar sufocar opiniões contrárias. Analistas comparam iniciativa à censura chinesa – e duvidam que seja bem-sucedida

Por Cauê Seigne Ameni, da redação de Outras Palavras

A história poderia ter brotado de uma ficção sobre guerras cibernéticas, mas está a ponto de se tornar real. O Comando Central do Exército dos Estados Unidos (CentCom) prepara uma grande operação para manipular as redes sociais. Centenas de militares poderão ser mobilizados para intervir em ambientes como o Twitter e o Facebook, sempre que houver críticas ao papel de Washington no mundo.

Porém, omitirão suas identidades. Contarão com um software que multiplicará falsos perfis de usuários destas redes, e os transformará em “fantoches” eletrônicos – para usar uma expressão do londrino The Guardian, que apurou os fatos e os expôs na edição de quinta-feira (17/3). A operação fere as leis dos EUA. Será realizada graças a uma brecha legal, que não impede o exército de praticar manipulação contra internautas de outros países. Aparentemente, irá se desenvolver, num primeiro momento, no Oriente Médio. Nada impede, contudo, que seja voltada contra outros alvos. Continue reading “Incrível: como os Estados Unidos querem invadir as redes sociais” »

O Império tenta enquadrar a revolução

Por que a presença de uma frota da OTAN, diante do litoral líbio, nada tem a ver com a democracia. Quais os verdadeiros motivos para uma eventual intervenção militar do Ocidente. Como a ameaça pode se dissipar

Capitaneadas pelo porta-aviões nuclear USS Enterprise (foto), o maior navio de guerra do planeta, vinte embarcações militares dos EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Grécia e Turquia rumam, desde ontem (28/2) para o litoral da Líbia, conflagrada há dez dias. Estão sob comando da OTAN, a aliança militar dirigida por Washington. Seu deslocamento foi decidido, informa o The Guardian, no final da semana passada, no Pentágono, em reunião entre chefes militares norte-americanos e britânicos. Fontes do jornal londrino afirmaram que uma intervenção militar direta não está excluída — embora a hipótese seja complexa e arriscada, política e militarmente.

O pretexto para tal ação foi oferecido pelo ditador líbio, Muammar Gaddafi, que voltou a investir militarmente contra a população rebelada. O setor das Forças Armadas que permanece fiel ao governo avançou ontem contra a cidade de Zawiyah, importante centro petroleiro a 50 quilômetros da capital, já sob controle dos insurreitos. O ataque foi rechaçado. As força bélica do governo parece ter-se reduzido. Os opositores estão armados e assumiram, em diversas cidades, o controle dos serviços públicos, como mostram reportagens do próprio Guardian e do El País. Em Benghazi, o centro rebelde, fala-se que a expedição para desalojar de vez Gaddafi, em Tripoli, já está em fase de articulação.

Uma ação militar externa, comandada por grandes potências, não visaria, portanto, garantir a democracia. Estaria relacionada — como se verá a seguir — a três objetivos nada altruísticos, mas muito ligados entre si: enquadrar a revolução árabe; assegurar o suprimento de petróleo; conter o fluxo de imigrantes.

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Wikileaks e os arquivos secretos da guerra afegã

Como uma ferramenta colaborativa da internet revelou o desastre militar que Washington tenta ocultar — e está perturbando poderes econômicos e políticos, ao tornar públicos seus segredos

Centenas de civis afegãos foram mortos, entre 2004 e 2009, em operações de guerra jamais reveladas à opinião pública. Em muitos casos, motociclistas desarmados foram alvejados sumariamente, porque soldados norte-americanos julgaram tratar-se de homens-bomba. Há uma unidade militar encarregada de capturar ou assassinar supostos líderes do Talibã, sem julgamento. Cresce a cada dia o uso de aviões não-pilotados (teleguiados a partir a bartir de uma base em Nevada) para matar militantes talibãs.

Porém, os Estados Unidos estão cada vez mais próximos de perder a guerra. Assim como quando lutava contra os soviéticos, o Talibã obteve mísseis terra-ar e os utiliza para ameaçar a coalizão liderada pelos EUA — algo também omitido à opinião pública até agora. O grupo fundamentalista intensificou a intensidade de seus bombardeios, que aterrorizam a população e já mataram mais de 2 mil civis.

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“A mais brutal confusão e todos os desacertos”

No primeiro texto do The Guardian sobre o Afeganistão, a surpresa: relatos do Wikileaks revelam uma guerra totalmente desconhecida do público, até agora


(Do The Guardian) | Tradução: Caia Fittipaldi/Vila Vudu

A névoa da guerra é excepcionalmente densa no Afeganistão. No momento em que se dissipa, como hoje, com a publicação, pelo Guardian, de excertos de relatos secretos de militares dos EUA, revela-se paisagem muito diferente daquela a que nos habituamos. São relatos de guerra escritos no calor da hora e mostram um conflito no qual reinam a mais brutal confusão e todos os desacertos, sem qualquer plano ou projeto. Há muitas diferenças entre o que mostram esses documentos e a guerra organizada, bem embalada, da versão “pública” dos comunicados oficiais e dos flashes necessariamente resumidos de jornalistas incorporados à tropa.

No material agora publicado há mais de 92 mil relatórios de ações dos militares norte-americanos no Afeganistão entre janeiro de 2004 e dezembro de 2009. Os arquivos foram distribuídos por Wikileaks, website que publica material não rastreável de várias fontes. Em colaboração com o New York TimesDer Spiegel, o Guardian trabalhou durante semanas nesse oceano e dados, até extrair deles a textura oculta e as histórias de horror humano que são o dia a dia da guerra. Esse material teve de ser tratado como o que é: um relato contemporâneo ao conflito. Alguns dos relatórios de inteligência não têm fonte confirmada: alguns dos aspectos da contagem do número de mortes entre civis não parecem confiáveis. São relatos – classificados como secretos – enciclopédicos, mas incompletos. Foram removidas do que se lerá todas as informações capazes de colocar em risco a segurança dos soldados, de informantes locais e de agentes colaboradores.

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