Europa Archive

Crimes de ódio na Europa

Em Florença e Liège, dois novos atentados contra a multidão revelam a que ponto pode chegar a xenofobia, quando alimentada pelas políticas econômicas do “salve-se quem puder”

Por Maurício Santoro, em Todos os Fogos o Fogo

Na terça-feira (13/10), dois homens atiraram em multidões nas cidades de Florença (Itália) e Liège (Bélgica). Mataram vários, feriram centenas e se suicidaram ao serem cercados pela polícia. Há pontos em comum com o terrorista que cometeu o massacre de julho na Noruega. Os três casos envolveram temas mal-resolvidos com xenofobia: o italiano atirou em imigrantes do Senegal numa feira, o noruguês agiu movido pelo ódio ao que julgava ser uma permissiva atitude do governo com respeito ao multiculturalismo, e o belga era, ele mesmo, um filho de imigrantes, que não conseguiu adaptar-se à nova sociedade, e vivia com problemas com drogas. Os três agiram sozinhos, mas sua loucura individual floresce em meio à força crescente da extrema-direita na Europa, que encontra um terreno fértil para ampliação com a crise econômica regional.

Os países europeus têm um percentual relativamente pequeno de imigrantes, em geral entre 5% e 10% da população. A título de comparação, cerca de 50% dos habitantes da cidade de Nova York nasceram fora dos Estados Unidos. No entanto, não se deve subestimar o impacto que o medo e raiva dessa minoria podem alcançar. Na Alemanha nazista, os judeus mal chegavam a 1% dos moradores do país, o que não impediu o antissemitismo de se tornar um pilar ideológico do regime. Os imigrantes da Europa vêm de várias partes: norte da África (França), do subcontinente indiano (Reino Unido), Turquia (Alemanha), da antiga União Soviética.

Florença, Liège e Oslo não são cidades marcadas pela violência étnica e por tensões sócio-políticas, como, digamos, os subúrbios de Paris ou leste de Londres, para citar o epicentro de distúrbios recentes. Mas os sentimentos de fanatismo estão por toda a Europa. Na porção oriental do continente, a extrema-direita já é um dos blocos parlamentares na Hungria. Na parte ocidental, recentemente voltou ao parlamento na Suécia e na Grécia e é forte candidata à presidência da França. Na Alemanha, ocorreram uma série de crimes ligados a grupos neonazistas.

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Entre a Primavera Árabe e o Outono Europeu

Todos os meses, centenas de imigrantes vindos de diversas partes da África desembarcam em Lampedusa, ilha italiana que, de paraíso turístico, passou a ser foco de crise humanitária

Por Graziano Graziani, Opera Mundi

A ilha mais ao sul da Itália. É assim que Lampedusa – mais perto da Tunísia do que da Sicília – é conhecida. E a proximidade com o continente africano é o que vem transformado o local na porta de entrada da Europa para milhares de imigrantes, conforme testemunhou o Opera Mundi nessa série especial. Terra de pescadores, Lampedusa era um popular destino de turismo na Itália mas, com o agravamento da crise econômica mundial, se tornou o epicentro de uma outra crise: a humanitária.

O fenômeno começou nos anos 1990, quando as pessoas chegavam sozinhas à costa da ilha e os próprios nativos as ajudavam no desembarque. Mas os fluxos foram crescendo cada vez mais. O governo italiano resolveu intervir, criando um centro de apoio no aeroporto e, por fim, instituindo o CSPA (Centro de Atendimento e Primeiros Socorros), em Contrada Imbriacola, centro da ilha.

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O que Jesus faria?

Estou na frente da catedral de St Paul, no centro de Londres. Faz já duas semanas que ativistas acamparam ali, como parte do movimento internacional de protesto iniciado com o “Ocupe Wall Street”

Por Paulo Nogueira, em seu blog

Parece que estou vendo-o: ele, o povo.

Estou na frente da catedral de St Paul, no centro de Londres. Faz já duas semanas que ativistas acamparam ali, como parte do movimento internacional de protesto iniciado com o “Ocupe Wall Street”. Continue reading “O que Jesus faria?” »

Em meio à crise, cresce comércio de armas

Instituto sueco compara gastos bélicos com desamparo da infância e chega a conclusões alarmantes. Despesas ampliadas inclusive na Europa, em meio à onda de cortes em serviços públicos

Pela redação da agência Prensa Latina

Com a despesa mundial em armamentos durante 2010, seria possível manter 212 milhões de crianças de aproximadamente um ano, ao custo médio necessário em um país desenvolvido europeu. A manutenção estimada por criança ali, segundo fontes extraoficiais, é de 4715 dólares ao ano, enquanto o investimento em meios bélicos aumentou em 2010, globalmente, a um 1,63 trilhão de dólares.

Nove milhões de crianças morrem de fome anualmente no mundo, e só o protótipo do superavião britânico não tripulado Taranis acumulou um custo de 215 milhões de dólares, que bastariam para alimentar 45.599 crianças ao ano.

Nos países do sul poderiam se alimentar muitos mais crianças, se só se tratasse de cobrir as necessidades básicas para não morrer de inanição e de doenças previsíveis ou curáveis. Continue reading “Em meio à crise, cresce comércio de armas” »

Europa: dois banqueiros e um segredo

Mais que a Grécia, quem está à beira do colapso são duas mega-instituições financeiras: o Banco Central Europeu e o Deutsche Bank. Seus poderosos dirigentes querem escapar do desastre impondo cortes de direitos às sociedades

Por Jérôme Roos, no Esquerda.net

Durante um ano, o Deutsche Bank e o Banco Central Europeu (BCE) fizeram-nos acreditar que o que se passa na Grécia seria desastroso para a Europa. Estavam mentindo com todos os dentes da boca.

Em Frankfurt, dois dos homens mais poderosos da Europa sentam-se, virtualmente, um de cada lado da rua, nos edifícios-sede de duas das mais importantes instituições no continente. Ninguém elegeu estes homens para que governem sobre nós. Ninguém votou nas suas instituições para que ditassem a nossa política econômica. No entanto é o que fazem.

Apresentamos Jean-Claude Trichet e Josef Ackermann. O primeiro é o líder do Banco Central Europeu. Está de saída, e foi recentemente considerado pela Newsweek uma das cinco pessoas mais importamtes do mundo. O segundo é o líder do maior banco privado da zona euro, o Deutsche Bank, e foi recentemente considerado pelo The New York Times “o banqueiro mais poderoso da Europa”. Nenhum deles foi eleito para liderar a economia. No entanto, juntos é o que fazem. Continue reading “Europa: dois banqueiros e um segredo” »

França, diversidade cosmética

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Sociólogo franco argelino sustenta: banido por princípios republicanos, racismo ressurge no dia-a-dia. Mas ele ressalta: revoltas árabes podem sensibilizar periferias europeias

Por Pedro Chadaverian, no Outra Economia

Encoberto sob o “véu” dos valores republicanos, o mito da diversidade francesa se dirige para uma encruzilhada. A extrema-direita desponta mais forte e perigosa do que nunca como opção eleitoral (Marine Le Pen investe na imagem de “Paz e Amor”). A Primavera Árabe, em estágio de impasse, coloca a questão migratória na Europa no olho do furacão, tornando-se como moeda de troca na formação de governo e incitação à xenofobia em debates eleitorais. O governo Sarkozy desponta como um dos artífices para delimitar a livre circulação de pessoas no Espaço Schengen. A crise econômica e o desemprego parecem estar longe de serem efetivamente combatidos.  De fato, a diversidade está longe de ter, em solo francês, e mesmo europeu, um peso similar aos três preceitos que passaram a caracterizar a sociedade moderna desde 1789.

 

Para abordar essa realidade e a possível desconstrução desse mito, o sociólogo franco-argelino El Yamine Soum, 32 anos, especialista em temas relacionados à diversidade e etnicidade foi entrevistado pelo professor de Economia da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) Pedro Chadarevian, que colaborou com Opera Mundi. Também especializado em questões raciais no mercado de trabalho, outros artigos e intervenções de Chadarevian podem ser encontrados em seu blog Outra Economia.

Soum é professor de Relações Internacionais no Instituto Internacional do Pensamento Islâmico em Paris. Ele também tem uma série de publicações em livros na França, Espanha, EUA e México. Também é co-autor, ao lado do sociólogo francês Vincent Geisser, de um livro sobre a diversidade na política (Discriminar para melhor Reinar, em português). É figura carimbada em intervenções na mídia e em conferências relacionadas ao tema. Trabalha também para programas de cooperação na área patrimonial e de turismo com vários países, entre eles: Mali, Chile e Vietnã. Segue a entrevista:

Com frequência, é dito que, na França, não existe racismo. Porém, a segregação racial residencial, assim como a do mercado de trabalho, é marcante no país. A diversidade é, então, um assunto do momento?
O racismo infelizmente permeia todas as sociedades e a França está longe de se ver livre desse fenômeno. A questão da diversidade – o que significa, em francês, dizer entre os dentes “árabe” e “preto” –, é um assunto do momento, mas, sobretudo, um assunto polêmico. Continue reading “França, diversidade cosmética” »

Nas praças, um programa



Boaventura Santos destaca dois aspectos centrais nas lutas da juventude europeia: a reivindicação da democracia radical, como forma de subverter domínio das elites; e sinais de um projeto — que inclui bens comuns, diversidade, respeito à natureza e novo sistema político

 

Por Boaventura de Sousa Santos

Nos próximos tempos, as elites conservadoras europeias, tanto políticas como culturais, vão ter um choque: os europeus são gente comum e, quando sujeitos às mesmas provações ou às mesmas frustrações por que têm passado outros povos noutras regiões do mundo, em vez de reagir à europeia, reagem como eles. Para essas elites, reagir à europeia é acreditar nas instituições e agir sempre nos limites que elas impõem. Um bom cidadão é um cidadão bem comportado, e este é o que vive entre as comportas das instituições.

Dado o desigual desenvolvimento do mundo, não é de prever que os europeus venham a ser sujeitos, nos tempos mais próximos, às mesmas provações a que têm sido sujeitos os africanos, os latino-americanos ou os asiáticos. Mas tudo indica que possam vir a ser sujeitos às mesmas frustrações. Formulado de modos muito diversos, o desejo de uma sociedade mais democrática e mais justa é hoje um bem comum da humanidade. O papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores.  Continue reading “Nas praças, um programa” »

Celso Amorim, revoltas árabes e Harvard

O ex-chanceler brasileiro descreve, em crônica, a perplexidade do ambiente acadêmico norte-americano diante de mudanças que perturbam a antiga sensação imperial do país

Publicado em CartaCapital

Da ampla janela do escritório/mansarda que me foi atribuído na Harvard Kennedy School enxergo o topo de outros edifícios que fazem parte do complexo da universidade. A forma abobadada e o colorido dos campanários fazem lembrar cúpulas que se veem em outras paragens, meridionais ou mesmo orientais (Maetternich dizia que o Oriente começava na Rnnweg, na saída de Viena).

Tudo isso dá um ar pacífico e multicultural à paisagem, conducente à reflexão e ao debate. É verdade que esta atmosfera leve não se reflete sempre nos temas dos debates, em geral concentrados em situações nada tranquilas, como as duas guerras em que este país está envolvido e em outros conflitos potenciais. A Líbia, embora muito presente no noticiário, surge menos nas discussões, possivelmente em razão do seu baixo valor estratégico, apesar da tragédia humanitária que a intervenção da Otan não diminuiu em nada, como bem assinalou o ministro Antonio Patriota. Continue reading “Celso Amorim, revoltas árabes e Harvard” »

Europa fecha o cerco contra os imigrantes

Alemanha junta-se à França e Itália para que Velho Continente proíba livre tráfego de não-europeus entre suas fronteiras terrestres. Em Esquerda.net

A Alemanha juntou-se à França e Itália na ideia de reformar o tratado de Schengen, que estabelece a livre circulação de pessoas e bens no espaço europeu, de modo a incluir “novas cláusulas que permitam adaptá-lo a novas exigências”. Como pano de fundo está a imigração em massa de tunisianos desde que o regime ditatorial foi derrubado. Itália e França viram aumentar o fluxo de imigração ilegal proveniente do norte de África na sequência das revoltas populares em países árabes.

O apoio foi expresso por Hans-Peter Friedrich, ministro do Interior alemão, escreve o El Mundo. Um porta-voz do ministério admitiu ao jornal alemãoFrankfurter Allgemeine que, em casos extremos, as fronteiras do interior do espaço Schengen podem ser “suscetíveis de reposição dos postos de controle, de modo a que certas práticas excepcionais sejam simplificadas e rotineiras”.

Mas o que a Alemanha não admite é que seja colocada em causa a liberdade de movimentação dos cidadãos da zona Schengen nem o espírito do tratado. Quaisquer modificações só poderia ter efeitos limitados e apenas sobre pessoas que não são cidadãos dos países signatários do tratado. Trata-se de limar as arestas da Europa fortaleza – livre circulação segundo critérios rigorosos e dentro de muros bem altos.

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FMI: o novo discurso e as ideias de sempre

Por que o Fundo Monetário Internacional obriga os países europeus a um programa doloroso e destinado ao fracasso — embora seus dirigentes preguem políticas de sentido oposto. Por Mark Weisbrot, no The Guardian | Traduzido e publicado pelo Vi o Mundo


No momento em que o Fundo Monerário Internacional (FMI) e o Banco  Mundial reúnem-se em Washington para seus encontros anuais da primavera [nórdica], surgem debates sobre quanto mudou o FMI. O diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn citou John Maynard Keynes em seu discurso de quarta-feira na Brookings Institution:

As falhas mais aparentes da sociedade econômica em que vivemos são sua incapacidade de dar pleno emprego e sua distribuição arbitrária e desigual de riqueza e renda.

Em seu discurso inaugural nos encontros do outono do ano passado, ele foi além, tratando do aumento da dívida pública em países de alta renda em termos que deveriam ser leitura obrigatória para os jornalistas econômicos dos Estados Unidos: Continue reading “FMI: o novo discurso e as ideias de sempre” »