Dilma Archive

A estratégia da despolitização da crise política

A presidenta Dilma empreendeu, até aqui, uma estratégia de despolitização da ofensiva sistemática aos integrantes de seu Ministério. Quando isso não for mais possível, será mais difícil formular uma agenda política com partidos desgastados num processo onde o único resultado palpável, até agora, foi o de questionar a legitimidade de cada partido da base aliada

Por Maria Inês Nassif, Carta Maior

O que causa espécie nas crises políticas enfrentadas pela presidenta Dilma Roussef desde 1° de janeiro até o mês que encerra 2011 é a sua estratégia, até agora bem-sucedida, de despolitizar a ofensiva sistemática aos integrantes de seu Ministério pela imprensa, por partidos aliados ou, em menor intensidade, por partidos adversários. Na verdade, a despolitização é o resultado mais evidente do comportamento da presidenta, de substituir ministros num prazo não tão pequeno que pareça rendição aos ataques ou dê a impressão de que suprimiu direito de defesa do acusado, nem tão grande que pareça que vá comprar a briga por um subalterno.

De qualquer forma, um comportamento político previsível como este não deixa de alimentar, do lado da imprensa, a vaidade do poder que decorre de uma derrubada de ministro; e, dos “amigos” do poder, a tentação de aproveitar as oportunidades que se colocam para ocupar espaços dentro de seu partido ou em favor da sua legenda na base de apoio do governo.

Continue reading “A estratégia da despolitização da crise política” »

No G20, Dilma apoia taxação a operações financeiras

Para combater a pobreza, a presidenta Dilma defende na cúpula do G20 a taxação de operações financeiras para aumentar gastos sociais globais

Por Palavras Diversas

BBC Brasil e Reuters divulgaram em suas páginas, com destaque, proposta da presidenta Dilma de taxar operações financeiras mundiais para ampliar investimentos sociais no planeta.

Esta proposta vai na contra-mão do que pretendem países, BCE e o FMI, que vislumbram apertar os cintos como reação a crise e, consequentemente, provocar mais aperto e recessão.

Dilma falou da experiência brasileira que retirou milhões de pessoas da pobreza como resultado de uma eficiente política econômica de inclusão social: A inclusão de 40 milhões de pessoas na classe média foi não somente um impositivo moral, mas também uma questão de eficiência econômica” Continue reading “No G20, Dilma apoia taxação a operações financeiras” »

Um sopro de vida orgânica no PT

Chamuscado, durante o governo Lula, por sua aproximação desastrosa com o poder, o partido parece ensaiar um ressurgimento, no cenário aberto após a posse de Dilma. O IV Congresso, realizado este fim de semana, seria um sinal?

Por Maria Inês Nassif, em Carta Maior

Não se recomenda reduzir o Congresso do PT, realizado no final de semana, a um mero jogo de cena. A ausência de debates acalorados ou a não explicitação de grandes divergências internas dizem mais do que isso. Ao longo de oito anos de governo, e no início de um terceiro mandato na Presidência, era inevitável que mudanças se produzissem num partido que sempre funcionou como uma frente de tendências de esquerda, setores sindicais e grupos ligados à Igreja Progressista.

O PT passa por um processo de mudança que se iniciou em 1998, após a terceira derrota de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência. Ao longo do tempo, sofreu defecções próprias de um partido que se consolidou na oposição e como partido de esquerda que, uma vez no poder, não teria condições de governabilidade se não optasse por uma política de alianças mais ampla e maleável. Continue reading “Um sopro de vida orgânica no PT” »

“Faxina” ou gambiarra?

No debate recente sobre a corrupção, falta o essencial: entender os mecanismos que favorecem o desvio de recursos públicos, e buscar alternativas para neutralizá-los

Por Leonardo Avritzer, do CRIP

O grupo de intelectuais que se reúne em torno do Centro de Referência do Interesse Público (CRIP) da UFMG tem uma preocupação de longo prazo com a corrupção e seu impacto no sistema político brasileiro. Em nossas pesquisas, identificamos que a população brasileira considera a corrupção um grave problema, dos mais graves enfrentados pelo país.

Mas a ideia de que a corrupção no Brasil é causada pela presença de um ou de outro mau político ou administrador no governo e que a sua retirada ou a retirada de todos eles deixaria o país livre da corrupção parece completamente equivocada.

Sendo assim, a ideia de que o que o país necessita é uma “faxina”, tal como temos lido todos os dias na grande imprensa nas últimas semanas, é completamente equivocada por dois motivos: porque é evidente que sem corrigir alguns processos na organização do estado e do sistema político, a corrupção voltará a estar presente nestes mesmos lugares; segundo porque a seletividade desta “faxina” pautada por alguns órgãos da grande imprensa irá desestruturar o governo e sua base de sustentação sem gerar um governo ou um estado menos corrupto. Continue reading ““Faxina” ou gambiarra?” »

Os cem dias de Dilma e o futuro

0saves


Luís Nassif avalia que os acenos da presidente aos conservadores são tática necessária. Mas frisa: o grande desafio será desarmar a armadilha dos mercados financeiros

O modelo Lula

Para analisar os cem dias de Dilma, é necessário entender o projeto de país de Lula.

Não é um projeto teórico, fruto de elucubrações intelectuais. Mas algo que sai da própria formação política de Lula e ganha corpo especialmente quando pega as rédeas do governo – no segundo mandato.

A construção de um país não é algo linear. Ainda nos anos 90 insisti muito na visão de “movimento pendular” para explicar a dialética do desenvolvimento. A ausência dessa dialética é a principal responsável pelo envelhecimento de regimes e de países.

Cria-se um movimento em determinada direção – digamos o neoliberalismo avassalador do início e do fim do século 20. Esse movimento surge em contraposição ao centralismo do período anterior, corrige vícios e consolida novos vitoriosos. Continue reading “Os cem dias de Dilma e o futuro” »

O Brasil e a crise em Portugal

0saves

Leis nacionais reduzirão apoio a algo apenas simbólico, mas visita de Lula e Dilma foi importante.  Pressões da mídia e dos mercados contra país europeu ignoram circunstâncias históricas

Por Mauricio Santoro, Todos os Fogos o Fogo

A viagem de Dilma e Lula a Portugal foi relegada para segundo plano em função da morte do ex-vice-presidente José de Alencar. É compreensível, mas foi uma pena, porque perdeu-se boa oportunidade para debater as relações entre o Brasil e sua antiga metrópole colonial, num momento em que a economia lusitana enfrenta uma crise séria que pode resultar em moratória, e que lembra muito as situações difíceis vividos pelos brasileiros nas décadas de 1989-90.

Portugal tem longa história de instabilidade financeira. De 1800 até hoje foram oito moratórias e a gestão da dívida pública foi um dos fatores decisivos para a instalação de António Salazar como ditador do país por mais de 40 anos. Atualmente, os portugueses compartilham com irlandeses, italianos, gregos e espanhóis a condição de economias problemáticas na União Européia, com a dificuldade de ajustar-se ao euro e em controlar os gastos públicos – a dívida portuguesa é de aproximadamente 100% do PIB. O gráfico abaixo o situa com relação aos outros “PIIGS”.

Sem a possibilidade de desvalorizar o euro, os custos do ajuste tornam-se ainda maiores e incluem o receituário tradicional de redução de salários do funcionalismo, privatizações e cortes em serviços públicos. São receitas amargas que criaram impasses políticos em Portugal. Em um ano o parlamento recusou quatro pacotes econômicos e há poucos dias o primeiro-ministro socialista José Sócrates renunciou após outro fracasso. Os partidos não foram capazes de articular um pacto nacional para superar a crise e o que aparece no horizonte é a possibilidade de recorrer a um auxílio internacional de emergência, combinando fundos da União Européia e do FMI.

O governo português solicitou ajuda ao Brasil, pedindo as autoridades brasileiras que comprassem títulos da dívida pública lusitana, num esforço de convencer os mercados financeiros da seriedade do compromisso de Lisboa com as reformas econômicas (Hugo Chávez fez algo assim quando Néstor Kirchner renegociou a dívida externa da Argentina). A presidente Dilma declinou, observando que as leis brasileiras só permitem ao Banco Central comprar papéis internacionais de classificação AAA, e as agências de risco já rebaixaram Portugal para patamares inferiores. Realpolitik. Estamos longe do tempo (anos 1950) em que um chanceler brasileiro dizia que as relações entre os dois países não eram políticas, mas “um caso de família”. Continue reading “O Brasil e a crise em Portugal” »

As consequências de um voto

0saves

Ex-chanceler critica com sutileza posição do governo Dilma frente ao Irã e sugere: nova postura da diplomacia pode enfraquecer projeção internacional do Brasil

Por Celso Amorim, na CartaCapital

No dia 24 de março, o Brasil apoiou a resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que instituiu um Relator Especial para investigar a situação no Irã. Esse tipo de relator sobre um país específico, do ponto de vista simbólico, representa o nível mais alto de questionamento sobre o estado dos direitos humanos. Para se ter uma ideia, apenas oito paí­ses estão sujeitos a esse tipo de escrutínio.

Se excluirmos o Haiti, cuja inclusão se deve sobretudo aos efeitos de catástrofes naturais e contou com o apoio do próprio governo de Porto Príncipe, todos os demais (Camboja, Mianmar, Somália etc.) foram palco de tragédias humanitárias graves. São em geral países muito pobres, ditos de menor desenvolvimento relativo, em que o Estado, seja por incapacidade (Burundi, Haiti), seja em razão de sistemas políticos autocráticos (Coreia do Norte, Myanmar), não atende minimamente às necessidades dos seus cidadãos.

Continue reading “As consequências de um voto” »

Reforma política: mudar tudo será a melhor opção?

0saves

Em três semanas, a comissão criada por José Sarney reescreveu nosso sistema político. Mas o Congresso estará à altura das transformações que ela propõe?

Por Marcos Coimbra

Se não precisar de mais tempo, a Comissão Especial do Senado para a reforma política concluirá seus trabalhos na terça-feira 5, quando a última reunião prevê a sistematização dos trabalhos e a apresentação das conclusões.

Louve-se o empenho com que José Sarney cumpriu o compromisso de constituí-la e lhe dar condições de funcionamento. Quando indicou alguns dos nomes mais conhecidos do Senado, garantiu que a comissão não seria apenas mais uma. Seus 15 integrantes são uma espécie de elite da Casa, com dois ex-presidentes da República, ex-governadores de diversos partidos e lideranças respeitadas. Sentindo-se no dever de dar uma satisfação à opinião pública, todos se esmeraram no cumprimento da agenda, de forma a não frustrar as expectativas de que tirariam a reforma do papel.

Dos estudos e discussões da comissão sairá um anteprojeto, que ainda terá de ser apreciado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ) antes de ser submetido ao Plenário. O resultado irá depois para a Câmara, onde outra comissão com objetivos semelhantes está funcionando (em ritmo menos acelerado). É muito chão pela frente. Até subir à sanção presidencial, seu texto ainda passará por várias mudanças.

Embora isso seja verdade, o caráter ilustre da comissão pode inibir as discussões ao longo de sua tramitação. É natural, por exemplo, que os nove senadores do PSDB tenham dificuldade de votar contra uma proposta defendida por Aécio Neves. Ou que os quatro do PP sejam contrários a algo que Francisco Dornelles aprovou exercendo a presidência. E que os quatro do DEM rejeitem as teses de Demóstenes Torres.

Continue reading “Reforma política: mudar tudo será a melhor opção?” »

Boff e as encruzilhadas do novo governo

Teólogo elogia erradicação da miséria como prioridade; mas lembra que é preciso rever o conceito de desenvolvimento

Por Marilza de Melo Foucher

Leonardo Boff teve um papel fundamental nessas eleições e eu não podia deixar de entrevistá-lo durante minha passagem no Rio. Todavia, devido seus inúmeros compromissos e o cansaço de final de campanha deste bravo eleitor da cidadania ativa, não foi possível nos encontrarmos. Leonardo me respondeu por email duas questões:

Continue reading “Boff e as encruzilhadas do novo governo” »

Dilma e a natureza merecem descanso

A viagem da presidente ao Sul da Bahia convida a questionar: é possível cultivar a esperança de um Brasil mais doce, sábio, cuidadoso com a natureza e as vocações culturais e criativas do seu povo?

Por Rui Barbosa da Rocha*

A história é conhecida por todos: os ciclos do pau brasil e da cana de açúcar começaram na capitania de Ilhéus, litoral Sul da Bahia. Depois vieram os desmatamentos para as pastagens, roçados de mandioca, a exploração do garimpo nos sertões, a extração de madeiras, a caça indiscriminada, tudo junto com a escravidão e depois o trabalho mal remunerado, que explicam muito do atual quadro social e ambiental no Brasil.

Passaram-se alguns séculos e o país continuou atrasado em relação ao mundo ocidental, que marchou movido pela revolução científica e industrial. Fechamos o século 19 como um imenso produtor de matérias primas – café, cacau, borracha e cana de açúcar, com muita miséria e latifúndios pelo país. Assim, adotamos no século 20 uma ordem imperativa de industrialização e urbanização acelerada. Crescemos durante décadas a taxas de 8 a 10 % ao ano, até 1980, feito somente conquistado pela China dos últimos anos.
Continue reading “Dilma e a natureza merecem descanso” »