Dilma Roussef Archive

Dilma: a falsa encruzilhada e a real

O problema da presidente não são as negociações com o PMDB. É a necessidade de uma nova estratégia — que tem forte relação com a economia e não pode ser substituída pela ilusória imagem de “dama de ferro”

Por Luis Nassif

Vamos a algumas considerações sobre os primeiros cinco meses do governo Dilma Rousseff.

É um evidente exagero dar o governo como acabado, como pretendem alguns. Ou considerar uma rendição eventuais concessões ao PMDB, como pretendem outros. Mas que há necessidade de se rever estratégias, não se tenha dúvida.

Collor e Jânio caíram não por malfeitos, bebedeiras ou quetais, mas porque enfrentaram o Congresso. Lula sobreviveu não apenas por sua liderança carismática mas porque soube recompor a maioria parlamentar.

Aliás, causa espanto que intelectuais sofisticados, como Marcos Nobre, considerem que concessões a aliados signifiquem o fim “do grande projeto político” de Dilma (clique aqui). Esse mundo maravilhoso, em que presidentes podem governar como executivos, sem concessões, costuma habitar o imaginário de não-políticos – não de cientistas sociais. Continue reading “Dilma: a falsa encruzilhada e a real” »

Por que a estratégia econômica de Dilma está ameaçada

Mudanças no cenário internacional frustraram plano de combate gradual aos estragos provocados pela taxa de juros. Governo precisa definir novo caminho, mas hesita em fazê-lo

Por Luís Nassif, em seu blog

Há um conjunto de confusões acerca da questão da inflação, juros e câmbio.

Vamos primeiro às certezas:

  1. A prioridade número um do governo é o combate à inflação.
  2. Há uma preocupação obvia com a taxa de câmbio e juros. câmbio
  3. Uma terceira prioridade é a manutenção da solidez fiscal e a meta de redução da relação dívida/PIB.

A estratégia original para perseguir esses três objetivos era:

  1. Reduzir o peso dos juros no combate à inflação, devido a duas contra-indicações principais:  afeta o câmbio e a dívida pública. A compensação foram as tais medidas macro-prudenciais, de atacar diretamente o canal do credito, aumentar o compulsório e retirar os incentivos fiscais ao consumo.
  2. Gradativamente, ir comendo pelas beiradas os juristas – os defensores incondicionais da elevação dos juros -, na medida em que as medidas prudenciais começassem a surtir efeito.
  3. Promover uma mudança gradativa no centro dinâmico da economia, do consumo das famílias (como foi nos últimos anos) para investimento. Aí passa por uma engenharia complexa, reduzindo gastos de custeio, mantendo os de investimento, preservando políticas sociais.

No meio do caminho surgiram três pedras:

Continue reading “Por que a estratégia econômica de Dilma está ameaçada” »

Política econômica de Dilma: o fim do conservadorismo?

0saves
O Banco Central ensaia alguma ousadia; o “mercado” prefere que a rota iniciada em janeiro perdure

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, falou ontem, na comissão de assuntos Econômicos. sobre a suposta “volta da inflação”. Explicou que os repiques dos últimos meses, foram provocados essencialmente pela alta mundial dos preços das commodities agrícolas (ver em Outras Palavras). Repetiu que não há explosão de “inflação de demanda” — aquela que seria causada pelo suposto “consumismo” das classes “c” e “d”. Previu que os índices anuais começarão a cair, devagar, no segundo trimestre, quando estiverem menos “contaminados” pelos meses (final de 2010) em que houve tendência ligeira de aceleração.
O tema é árido mais essencial. A suposta “volta da inflação” tem sido usada como pretexto (esfarrapado, como se vê aqui) para alta dos juros. Tombini comandou as duas rodadas de alta de juros realizadas no início do governo Dilma. Depois, deu sinais de que pode mudar de direção (ver coluna econômica de Nassif). Passou a ser atacado (junto com o ministro Guido Mantega) pelo “mercado” e pela mídia.
Se a mudança persistir, é possível que se reverta a tendência conservadora que o governo Dilma imprimiu à política econômica. Mas haverá muito pressão para que a maré continue favorável aos tubarões. Cada ponto percentual de aumento nas taxas de juros transfere, para o pessoal que tem dinheiro aplicado, cerca de 16 bilhões de reais ao ano — ou vinte vezes o orçamento do ministério da Cultura…

Retrocesso econômico: o ministro que se deve ouvir

Entrevista de Guido Mantega não esclarece motivo ​​​​​para alta de juros e cortes no Orçamento. Recomenda-se, para tanto, questionar um ministro mais poderoso

Dos vários passos atrás ensaiados pelo governo Dilma Roussef, em relação a seu antecessor, o mais expressivo é a política econômica. Aqui, não há apenas perspectivas futuras – mas setores sociais lucrando ou sofrendo perdas imediatas. Em nome da austeridade fiscal, o Palácio do Planalto rejeitou um aumento real do salário mínimo e está realizando cortes importantes no Orçamento federal.

A mesma postura não prevaleceu, porém, em relação aos juros pagos pelo Estado. Eles subiram 0,5 pontos percentuais em 19 de janeiro (para 11,25% ao ano) e há quem fale que voltarão a ser elevados esta semana, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reunir. Como a dívida pública total está em torno de R$ 1,6 trilhão, cada ponto percentual a mais, na taxa de juros, custa aos cofres públicos cerca de R$ 16 bilhões – cerca de dez vezes o orçamento total do ministério da Cultura para 2011…

Por isso, vale a pena ler a entrevista com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, publicada na Folha de S.Paulo, este domingo (e reproduzida ao final deste post). Honesto, Mantega não usa o argumento de praxe para justificar a elevação dos juros. Não se trata, diz ele, de arma para combater a inflação (em torno de 6% ao ano). Para contê-la, explicou o ministro, o governo tem instrumentos muito mais eficazes. Pode, por exemplo, aumentar a retenção obrigatória dos depósitos bancários (o “compulsório”), o que reduz imediatamente o crédito disponível para o público e, com isso, o consumo.

Continue reading “Retrocesso econômico: o ministro que se deve ouvir” »

Chamada: colaboração para debater a Previdência

Especula-se que o Palácio do Planalto pretende propor a redução direitos providenciários, elevando a idade mínima para aposentadoria. Queremos levantar dados que permitam formular saídas alternativas

A edição de hoje da Folha de S.Paulo afirma, sem expor suas fontes: haveria, nos ministérios da Fazenda e Previdência, estudos para a fixação de idade mínima para aposentadoria, a ser feita por mudanças na lei. O sentido seria o de reduzir direitos, endurecendo as restrições já impostas pelo chamado “fator previdenciário”. Atualmente, homens aposentam-se com 35 anos de contribuição ao INSS; mulheres, com 30. Mas as aposentadorias pagas sofrem um desconto, a depender da idade com que cada contribuinte se retira. O plano seria impedir a concessão do benefício antes dos 65 ou 60 anos de idade.

Infelizmente, não é impossível que a especulação do jornal (a matéria está reproduzida ao fim do post) seja verdadeira. É muito cedo para avaliações sólidas sobre o caráter do novo governo. Mas é claro que, contrariando suas propostas e slogan de campanha (“Para o Brasil continuar mudando”), a presidente Dilma Roussef sinalizou, em diversas áreas, retrocessos em relação ao governo Lula. Aceitou a elevação das taxas de juros. Determinou cortes no Orçamento que ferem o serviço público. Limitou o aumento do salário-mínimo. Atua no cenário internacional com muito menos ousadia e criatividade que seu antecessor. Parece ter recuado, diante da proposta de democratizar amplamente as Comunicações.

Reduzir direitos sociais seria um novo — e grave — passo atrás. Mas a simples denúncia será pouco efetiva. Outras Palavras quer reunir fatos e opiniões para um debate profundo em torno da Previdência. O sentido é investigar os caminhos para ampliar os benefícios, e as formas de financiar este movimento. Queremos reunir informações amplas sobre as aposentadorias atuais (muito inferiores aos salários, ao contrário do que ocorre em inúmeros países), a situação do INSS, as formas de contribuição atuais, a comparação com outros sistemas de Previdência no mundo.

Continue reading “Chamada: colaboração para debater a Previdência” »

Dilma: eficaz, porém sem ousadia?

Luís Nassif sugere: presença da presidente no aniversário da “Folha” revela governo hábil, mas sem pique para manter diálogo aberto por Lula com os movimentos sociais e a nova cultura política

As dúvidas sobre a estratégia política de Dilma

(Por Luís Nassif)

Vamos tentar entender um pouco essa questão da presença da presidente Dilma Rousseff nos 90 anos da Folha.

O pós eleições mostrou claramente que o único polo remanescente de oposição radical reside em uma dobradinha mídia-PSDB paulista explorando preconceitos contra o governo Lula. Foram cinco anos de pauleira que não pouparam ninguém, nem Lula, nem Dilma, nem quem ousasse ficar na frente do blitzkrieg midiático.

A motivação da velha mídia não é ideológica. Busca posicionar-se politicamente, recuperar influência em um quadro de profundas transformações tecnológicas, políticas e sociais no decorrer do qual perdeu o cetro de poder político máximo do país.

Continue reading “Dilma: eficaz, porém sem ousadia?” »

Tragédia, desigualdade e Estado débil


Aos poucos, começam a ficar claras as causas profundas do desastre que já matou mais de 500, no Rio de Janeiro


Ao visitar a região serrana do Rio de Janeiro, em solidariedade às vítimas das chuvas, a presidente Dilma Roussef tocou numa ferida aberta. Indagada sobre as causas da tragédia, ela apontou a falta, “há décadas” de programas que assegurem o direito à moradia. É devido a isso, frisou ela, que a população empobrecida “vai morar onde não pode”. O efeito da fala sobre os jornais foi curioso. A crítica social de Dilma não foi destacada por eles, como seria de prever. Mas cumpriu papel dissuasório: refreou a tentativa (liderada por O Globo) de culpar o governo federal, alegando não-liberação, em 2010, dos recursos do Orçamento da União destinados a contenção de encostas e transferência da população que vive em locais de perigo extremo.

Como sugeriu a presidente (sem usar as palavras), as causas principais das mortes e devastação são a desigualdade e o adiamento eterno da reforma urbana. Mas os fatos que emergiram nos últimos dias apontam um outro fator importante. A debilidade e ineficiência do Estado brasileiro — União, Estados e Municípios — contribuíram para o desastre. É pauta para uma reportagem de fundo, que poderia partir dos dados a seguir.

O Valor Econômico revela, hoje, que PAC reservou, em 2010, 1 bilhão de reais para as obras capazes de evitar desmoronamentos ou proteger a população. Desse total, apenas R$ 320 milhões foram investidos. Mas a causa principal é a ausência de projetos. As prefeituras, a quem cabem as obras, simplesmente não foram capazes de apresentar propostas que justificassem o uso dos recursos. Dos 99 municípios considerados áreas de grande risco (e por isso beneficiados pelas verbas), menos da metade encaminhou projetos.

Continue reading “Tragédia, desigualdade e Estado débil” »

A luta pela verdade, no governo Dilma

Um membro da Anistia Internacional enxerga novas chances de esclarecer os crimes da ditadura: “A chegada de uma ex-torturada à presidência pode provocar reflexão na sociedade”

Por Ana Helena Tavares, no blog Quem tem medo do Lula?

Carlos Alberto Lungarzo é ativista dos Direitos Humanos, sendo membro, desde 1982, da Anistia Internacional – que ajudou a fundar na Argentina, onde nasceu – e voluntário do Alto Comissionado das Nações Unidas para os refugiados. A estes deu sua contribuição no Brasil, América Central e México. Escreveu o livro Vendetta! sobre o julgamento do escritor italiano Cesare Battisti e colabora com duas ONGs da esquerda americana: a “Anwer.org” e a “Move On!”. Para honra minha, é atualmente co-editor do “Quem tem medo do Lula?”, onde publica seus artigos diretamente.

Nesta entrevista, concedida numa agradável noite, em uma das varandas do Campus da UFRJ na Praia Vermelha – onde esteve para participar de um seminário sobre jornalismo – ele fala sobre a necessidade de que se esclareçam os crimes da ditadura militar brasileira.

Para ele, ao requerer acesso aos documentos referentes à atuação de Dilma na ditadura, a mídia quer “criar agitação e confusão”, na tentativa de “suprimir a realidade, através de informações forjadas, que não são corretas – ou que, mesmo sendo corretas, são agitadas e colocadas fora de contexto, produzindo um impacto maior do que teriam naturalmente.” Por outro lado, ele considera que “se for contado o que de fato aconteceu com ela, é grande a possibilidade de aumentar o grau de consciência da sociedade.”

Conclui lamentando que o nosso sistema judiciário seja “uma ditadura, que não presta contas a ninguém, que se impõe por pressão e que usa uma linguagem ininteligível para o povo.” Sem que isto seja mudado, “nada de democracia”.


Continue reading “A luta pela verdade, no governo Dilma” »

Lula-Roussef: uma estreia

Nem dependência, nem conflito. A primeira semana após as eleições mostrou que o presidente e sua sucessora podem compor, a partir de 2011, uma inovadora dobradinha política

Nunca se sabe quanto vai durar. Mas Lula da Silva e Dilma Roussef responderam à altura, esta semana, a quem insistia em ver a relação política que mantêm com precária, de submissão ou tendente ao conflito. Em poucos dias, eles dissiparam com fineza uma agenda hostil, que sobrevivera aos conflitos da campanha; introduziram no debate nacional três temas de relevo (negociação do salário mínimo com as centrais sindicais, volta da CPMF e reforma política); e dividiram a oposição.

De quebra, sinalizaram que, a partir de 2011, a presidente no posto e o ex-presidente podem estabelecer uma “dobradinha” inédita na história da República. Um governa, com perfil alto. O outro, livre dos ônus do governo, sente-se à vontade para debater, com a opinião pública, os grandes temas de que os chefes de Estado são em geral privados, pelos compromissos políticos que são levados a assumir.

A novidade começou a ser construída na segunda-feira, menos de 24 horas após a vitória de Dilma nas urnas. Surpreendentemente, para quem enfrentou seis meses de campanha árdua e a oposição quase unânime dos meios de comunicação tradicional, a presidente provocou duas entrevistas em programas de TV.

Continue reading “Lula-Roussef: uma estreia” »

O novo cenário do segundo turno

Como Serra-2010 reproduz, no Brasil, a irracionalidade e a mobilização de ressentimentos que caracteriza o Tea Party, nos EUA. Por que a guinada de Dilma no debate da Band era indispensável para a busca da vitória. Quais as perspectivas para as eleições, agora

Por Antonio Martins | Imagem: Paul Klee, Paisagem Pedregosa

I.
O momento da guinada

Surpreendente, a candidata que lidera as intenções de voto abriu sua participação escancarando a “campanha de calúnias e mentiras” lançada contra si mesma. Tomou a iniciativa de introduzir o tema do aborto – principal peça usada pelos adversários para fustigá-la. Ousou referir-se à esposa de seu oponente, apontando-a como parte dos ataques (e não foi contestada…). Depois, partiu para o território mais desejado: as privatizações, ausentes da campanha até agora, foram tema de três perguntas em sequência, e certamente polarizarão as discussões, daqui para a frente.

Pouco traquejada em debates televisivos, Dilma Roussef teve momentos de nervosismo e lapsos, na noite do último domingo (10/10), primeiro confronto com José Serra após o primeiro turno. Mas ao final, havia alcançado dois objetivos. O mais visível foi retomar a iniciativa e voltar a pautar a disputa presidencial, depois de quase um mês apenas “segurando o resultado” e da frustração por não liquidar a disputa em 3 de outubro. Menos evidente, porém ainda mais importante, foi ter exposto a face pouco convencional – e por isso surpreendente e perigosa – da “nova” direita que a candidatura de José Serra articula. A frase que sintetiza esta descoberta ficará marcada. “Vocês estão introduzindo ódio na vida brasileira”.

A reação de Dilma respondeu a uma emergência. Estacionado por meses no patamar de 25% dos votos, incapaz de despertar entusiasmo ou simpatia durante toda a campanha, José Serra mostrou que não estava morto a partir de meados de setembro. Os ataques subterrâneos que lançou contra a candidata petista foram incapazes de lhe transferir votos. Mas provocaram o segundo turno, porque um grande contingente de eleitores atingidos refugiou-se em Marina (leia também nossa análise análise sobre 3/10).

Embora tenha conquistado menos de 1/3 das preferências dos eleitores, o candidato do PSDB viu-se, de um momento para outro, em condições reais de se tornar presidente. Tal possibilidade foi demonstrada pela primeira pesquisa de intenção de votos para o segundo turno, do Datafolha. Em 7 e 8 de outubro, menos de uma semana após a primeira disputa, Serra avançara pouco: tinha 41% das intenções de voto, contra 40% na sondagem anterior. Mas Dilma caíra de 52% para 48%. A diferença estreitara-se cincos pontos – reduzindo-se a apenas sete. Para entender como tal reviravolta foi possível, é preciso examinar a fundo, a à luz dos novos fatos, as características da campanha de Serra.

Continue reading “O novo cenário do segundo turno” »