desigualdades internacionais Archive

As consequências da assimetria nuclear

Até no Brasil há casos de mortes estranhas de cientistas que atuavam com energia atômica. O clube dos países com pesquisas nucleares é restrito e, como se vê, bastante violento

Por Sued Lima, no Observatório das Nacionalidades

Em outubro de 1981, Amarante foi atacado por uma leucemia arrasadora, que o matou em menos de duas semanas. Sua família tem como certo que o cientista foi morto pelos serviços secretos dos EUA e de Israel, com o objetivo de impedir a capacitação brasileira à produção de armas atômicas. Dando força às suspeitas, foi identificado um agente israelense do Mossad, de nome Samuel Giliad, atuando à época em São José dos Campos, que fugiu do país logo após a misteriosa morte do oficial brasileiro.

O episódio dá bem o tom da virulência empregada pelos EUA e Israel para bloquear a entrada de outros países no fechado clube nuclear. Não por coincidência, apenas quatro meses antes da suposta ação em território brasileiro, Israel desfechara devastador ataque aéreo ao reator nuclear de Osirak, no Iraque, que vinha sendo construído pelos franceses. Continue reading “As consequências da assimetria nuclear” »

Foxconn e iPhones: o que o Ocidente não vê

A empresa emprega 300 mil, quase todas migrantes e produz boa parte dos aparelhos consumidos no mundo. A cidade é a fábrica, nada mais. Os trabalhadores têm entre 20 e 30 anos. As taxas de suicídio são altas

Por Rafael A. F. Zanatta, em seu blog

Onde são produzidos os iPhones do cultuado (e falecido) Steve Jobs? Incrível como essa simples questão é ignorada nas reportagens sobre a Apple, localizada na Califórnia. Se você tem um produto da badalada empresa de Jobs, faça o teste. Olhe para a parte de trás do seu aparelho. Lá está a inscrição assembled in China.

Os celebrados iPhones da Apple são produzidos por trabalhadores chineses, apesar da empresa ser taiwanesa. Essa grande fábrica se chama Foxconn, que inclusive tem planos de instalar uma "cidade inteligente" no interior do Brasil para produzir iPads, iPhones e outros aparelhos.

Ontem mesmo foi publicada uma notícia que dizia o seguinte: "os dirigente da Foxconn, multinacional taiwanesa que planeja investir  US$ 12 bilhões na construção de um fábrica de touch screen para tablets, vem ao Brasil na próxima semana para rodadas de negociação em Brasília. Uma das propostas que será analisada pelos executivos é a do Paraná. O documento paranaense traz a oferta de uma área no eixo Londrina – Maringá como opção para receber o empreendimento e o detalhamento sócio-econômico do estado. O texto foi entregue há cerca de um mês para o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que encabeça as negociações". Continue reading “Foxconn e iPhones: o que o Ocidente não vê” »

Sudão do Sul, independente e vulnerável

No mais novo país do mundo, rico em petróleo, 90% das pessoas vivem com menos de um real por dia

Por Gabriel Bonis, na Carta Capital

Em 9 de julho, o mundo ganhou um novo país: o Sudão do Sul. A nação, maior que a Bahia, nasce carregando o título do Estado mais pobre do mundo, onde três dos estimados nove milhões de habitantes precisam de ajuda humanitária para se alimentar e 90% vivem com até 50 centavos de dólar por dia (cerca de 0,80 centavos de reais).

“Esse é um perfil tradicional da África Subsaariana, de países como o Timor Leste (Ásia) e a Eritreia, locais sem nenhuma infraestrutura e fortemente afetados pela herança colonial européia”, explica o mestre em geografia pela Universidade de São Paulo (USP), Edilson Adão Cândido da Silva.

A separação do Sudão, fortemente refletida em um referendo popular realizado em janeiro de 2011, que registrou a aprovação de 99% da população sulista à independência, foi possível devido a um acordo de paz assinado em 2005, entre as duas partes do então país.

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Sudão do Sul nasce em meio a pobreza e ameaças

UN Photo/Tim McKulka

Retrato das desiguldades internacionais: país tem apenas 50 quilômetros; apenas 15% são alfabetizados; não há fornecimento de energia elétrica para várias regiões da capital 

Por Igor Natusch, no Sul21

O mundo tem um novo país desde o último sábado (9/7). O Sudão do Sul, cuja independência foi confirmada por mais de 90% de sua população em plebiscito ocorrido em janeiro, será o 54º país do continente africano e nasce para dar fim a uma guerra civil que durou mais de 20 anos e matou pelo menos 2 milhões de pessoas. Apesar do otimismo da população e das jazidas de petróleo – 80% das antigas reservas do Sudão pertencerão agora ao novo país – a tendência é de que a recém-nascida nação engorde as fileiras na ponta de baixo dos indicativos sociais e de saúde, juntando-se ao grupo dos países de pior situação no mundo. Além, é claro, das nuvens cinzentas que anunciam a possível chegada de um novo conflito.

Autoridades como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e cerca de 40 chefes de estados estarão presentes na cerimônia de proclamação. O evento ocorrerá na capital do novo país, Juba – atualmente transformada em um grande canteiro de obras. O próprio aeroporto internacional da cidade, que receberá delegações de vários países, ainda está em construção – o edifício principal ainda é pouco mais que um esqueleto, com grande parte da sua estrutura ainda recebendo camadas de concreto.

Assim como a própria capital, a democracia do Sudão do Sul ainda está sendo construída. Há um único partido político consolidado, o Movimento de Libertação do Povo do Sudão, que indicou o nome de Salva Kiir, primeiro presidente eleito do país. Cabe a esse grupo o principal papel na redação da Constituição do país – que é qualificada como “ditatorial” por setores da oposição.

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Para que os alimentos matem a fome

Como lembra novo diretor da FAO, especulação e desperdício abrem, por enquanto, enorme distância entre aumentar a produção agrícola e construir um mundo sem pobreza

Washington Novaes, em O Mundo Certo

Na reunião em que foi eleito diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da Organização das Nações Unidas (ONU), há poucos dias, o ex-ministro brasileiro José Graziano da Silva assegurou – com sua experiência de gestor do programa de combate à fome entre nós – que esta será a sua prioridade: enfrentar esse problema no mundo, para que até 2015 o número de carentes de alimentos no planeta, hoje em torno de um bilhão, se reduza à metade. “É o desafio do nosso tempo”, disse na ocasião o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, lembrando que um dos complicadores dessa questão, “o protecionismo dos ricos” à sua produção de alimentos, só tem aumentado. E isso quando a própria FAO alerta que os preços desses produtos continuarão a subir nos próximos dez anos. E que a produção precisará crescer 70% até 2050, para alimentar os 9,2 bilhões de pessoas que estarão no mundo nessa época.

114 300x287 Muito mais alimentos, sem reduzir a pobrezaNão é a única preocupação de Annan. Ele alertou também para as crescentes compras e arrendamentos de terras em outros países, por especuladores e fundos de alto risco de países industrializados. Só em 2009 foi comprada na África uma área equivalente ao território da França (FAO, 27/6). São movimentos decorrentes das incertezas econômicas do mundo, com investidores buscando garantias reais, no momento em que os papéis financeiros chegam perto de US$ 600 trilhões, para um produto bruto mundial na casa dos US$ 60 trilhões anuais. E no momento em que Nouriel Roubini, um dos pouquíssimos economistas a prever a crise de 2008-2009, alerta (O Estado de S. Paulo, 23/6) para o forte aumento do “risco de uma parada e um duplo mergulho em economias avançadas”, em seguida a altas pronunciadas nos preços de alimentos, petróleo e commodities, que fazem “ressurgir o espectro da inflação”.

Em reunião do G-20, nos mesmos dias, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os mercados agrícolas, “os menos transparentes”, vão se transformando, “sem regras, em loteria, na qual a sorte sorri para os mais cínicos”. Por isso mesmo, o Brasil declarou seu apoio a um Sistema de Informações dos Mercados Agrícolas, administrado pela FAO, que possa coibir movimentos indesejáveis nessa área. Mas não aceita um mecanismo de estabilização de preços agrícolas. Para o ministro da Agricultura brasileiro, o único caminho para isso é “aumentar a produção”.

Tudo acontece num cenário paradoxal. Um relatório da própria FAO – Perdas Globais de Alimentos e Desperdício de Comida – assegura (11/5) que um terço dos alimentos produzidos no mundo, cerca de 1,3 bilhão de toneladas anuais, se perde ou é desperdiçado. São 670 milhões de toneladas nos países industrializados e 630 milhões nos demais. Os consumidores ricos, diz o documento, desperdiçam 222 milhões de toneladas de frutas e hortaliças – tanto quanto toda a produção de alimentos na África. Isso quer dizer um desperdício per capita de 95 a 115 quilos anuais nos Estados Unidos e na Europa. Nessa mesma hora, lembra o Banco Mundial, com a crise no Oriente Médio e na África, o preço dos alimentos ali já subiu 36%.

Mas o que se fará? Estender a todo o mundo o padrão de consumo de alimentos já vigente nos países mais ricos? E como? Há quase duas décadas, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) chama a atenção: para isso seriam necessários mais dois ou três planetas como a Terra. Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute, acha (New Scientist, 5/2) que a “bolha de alimentos” vai tornando insustentável a situação da água e da terra. Na Índia, 175 milhões de pessoas são alimentadas com grãos produzidos com água retirada em maior quantidade que a reposta. Na China, são 130 milhões. Segundo Brown, metade da população mundial já vive em países com escassez de água – “e esta noite mais 219 mil pessoas se terão acrescentado à população mundial” (mais de 80 milhões por ano).

Trazendo para o Brasil a questão do combate à fome, que será preciso fazer? Segundo o IBGE, dez milhões de brasileiros vivem com até R$ 39 por mês; 4,8 milhões moram em domicílios sem renda alguma; ao todo, a população de “miseráveis” chega a 16,2 milhões (equivalente à população total do Chile); abaixo da linha da pobreza – R$ 70 por mês – estão 8,5% dos 190 milhões de habitantes; 5,7 milhões vivem com R$ 40 a R$ 70 por mês; só no Estado de São Paulo são 1.084.402 “miseráveis”. O governo federal pretende investir R$ 20 bilhões para enfrentar o problema, dos quais R$ 16 bilhões do Bolsa Família (que é a única renda de 88% dos 13 milhões de beneficiários). Mais uma vez, pode-se comparar esse investimento com os mais de R$ 150 bilhões anuais pagos em juros a bancos e investidores em papéis da dívida.

Não há dúvida de que já somos o segundo maior produtor de alimentos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. E o Ministério da Agricultura espera aumentar a produção em 23% em uma década. Mas, como observa o ex-ministro Rubens Ricupero (Folha de S.Paulo, 26/6), esse desenvolvimento só se sustentará se formos capazes de encontrar soluções para “os desafios do meio ambiente”. Para justificar a preocupação, lembra ele números citados pelo também ex-ministro José Carlos Carvalho: “No Vale do Rio Doce, um hectare sustentava 2,8 cabeças de gado; hoje, mal chega a 0,6″.

E assim vamos no mundo dos paradoxos. A produção de alimentos cresce, sobem os preços, commodities transformam-se em garantia para investimentos, juntamente com a compra de terras em países mais pobres. Mas não se consegue sair de perto do número terrível de um bilhão de famintos no planeta, 40% da humanidade vivendo abaixo da linha da pobreza. A China caminhando para se tornar grande potência, mas Xangai, sua cidade mais populosa (acima de 20 milhões de habitantes), baixando legislação para proibir que cada família tenha mais de um cachorro – a política do “cachorro único” (ainda assim, mais de cinco milhões de cachorros; de quanto se precisará para alimentá-los?).


* Washington Novaes
é jornalista – wlrnovaes@uol.com.br.

 

FMI: muito além das mudanças cosméticas

A mídia debate o superficial — Strauss Kahn, suas travessuras e sucessores — e evita qualquer debate sério sobre as finanças internacionais, suas distorções e as alternativas a elas

Por Yilmaz Akyuz, na Envolverde/IPS

Grande parte da discussão pública sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteve centrada sobre o candidato a sucessor de Dominique Straus-Kahn e no defeituoso sistema de eleições de suas autoridades.

Entretanto, uma questão ainda mais significativa é a necessária reforma do mandato, da agenda e das políticas do FMI.

O Fundo define seu propósito principal como sendo a prestação do “bem público global da estabilidade financeira”.

Os antecedentes do FMI na prevenção da instabilidade e das crises financeiras deixam muito a desejar. Nas recentes décadas, viram-se repetidas flutuações nas relações de câmbio das principais moedas, persistentes e crescentes desequilíbrios comerciais e recorrentes crises nos balanços de pagamento, dívida e finanças em muitos países.

O FMI é incapaz de enfrentar as desacertadas políticas de países com forte influência nas finanças globais ou a instabilidade causada pelos mercados financeiros e fluxos de capitais desencadeados pela estendida liberalização à qual constantemente emprestou sua adesão.

Uma razão é que o Fundo não tem poderes efetivos sobre os países que não pegam dinheiro emprestado com ele. Ainda mais importante, é que o FMI é, em geral, incapaz de identificar o aumento das fragilidades financeiras, de prever a instabilidade e as crises, e de fazer advertências públicas a respeito, em grande parte devido à sua fé cega nos mercados.

No grave problema dos créditos imobiliários de risco, o FMI foi incapaz de prever a maior crise de sua existência. Também fracassou constantemente em advertir os países em desenvolvimento sobre os desestabilizadores fluxos de capitais e as insustentáveis situações das taxas de câmbio, dos pagamentos e da dívida.

Desde meados dos anos 1990, vários países que operavam sob programas do FMI confrontaram graves situações de instabilidade e crises, bem como alguns (Rússia e Argentina) não puderam evitar a insolvência.

Quanto mais o FMI fracassou em prevenir as crises, mais ficou envolvido no manejo das crises e na concessão de empréstimos, que agora é sua atividade primária.

Entretanto, a evidência mostra que os empréstimos do Fundo raramente evitam deteriorações econômicas em países que enfrentam crises. Pelo contrário, estão frequentemente condicionados à adoção de políticas pró-cíclicas que, na realidade, aprofundam o impacto das crises financeiras sobre o desemprego e a renda.

Os empréstimos de emergência costumam criar mais problemas do que resolvê-los. Argentina e Rússia acabaram quebrando enquanto recebiam apoio do FMI e não há garantia de que o mesmo não ocorra com a Grécia.

Como os empréstimos do FMI são concedidos para que os países possam fazer frente ao pagamento de sua dívida externa, frequentemente se estabelece uma carga desigual entre credores e devedores.

A dívida comercial é substituída por uma dívida com o FMI, que geralmente é mais difícil de renegociar. A dívida privada é descarregada sobre o setor público, de maneira que a dívida soberana invariavelmente aumenta depois das crises financeiras, devido ao excessivo endividamento do setor privado. Tudo isto impede o funcionamento da disciplina de mercado porque permite aos investidores e credores escapar sem carregar os custos dos riscos que assumiram.

Por isso, a tarefa primária do Fundo deveria ser a prevenção de crises, em lugar da concessão de empréstimos em casos de crises. Isto exige uma significativa melhoria na qualidade da vigilância financeira e econômica do FMI. Também requer uma reforma das obrigações de seus membros para que possa alcançar um grau razoável de disciplina multilateral sobre as políticas macroeconômicas e financeiras e as taxas de câmbio de seus principais membros.

Há uma razão substancial para reclamar disciplina multilateral no crédito e nas finanças, já que a incidência externa adversa das políticas monetária e financeira de países sistemicamente importantes tende a ser muito mais prejudicial.

Mesmo com reformas radicais nessas áreas, as crises de balanças de pagamento e financeiras continuarão ocorrendo. Os empréstimos de emergência não são nem a única nem a melhor maneira de encarar esses problemas. Um método alternativo é o de estabelecer procedimentos de acordo com princípios amplamente reconhecidos para as situações de insolvência que asseguram a participação dos prestamistas e dos investidores envolvidos nas crises.

Isto é mais equitativo entre devedores e credores e entre entidades de crédito privadas e oficiais, bem como é mais efetivo do ponto de vista de seu impacto no comportamento dos prestamistas e investidores e, portanto, na estabilidade financeira.

Trata-se de um componente vital das reformas necessárias para fortalecer o papel do FMI na prevenção das crises. De outro modo, o FMI poderá se converter cada vez mais em um quase emprestador internacional “de última instância”, sem contar com a necessária capacidade e poder de supervisão, o que, provavelmente, causaria mais mal do que bem. Envolverde/IPS

* Yilmaz Akyuz é economista-chefe do South Center, em Genebra, Suíça (www.southcentre.org).

 

Crise alimentar: Oxfam põe o dedo na ferida

11 300x227 Oxfam acusa a Europa de agravar a fome mundial

 

ONG britânica lança campanha internacional e sustenta: subsídios da Europa e EUA, e insistência em biocombustíveis ineficientes, elevam preços e emperram combate à fome

Por Envolverde/IPS

Bruxelas, Bélgica, 1/6/2011 – Diante do aumento dos preços dos alimentos, que ameaça deixar mais milhões de famintos a cada ano, a Europa deve abandonar os subsídios e desacelerar os esforços na produção de biocombustíveis, afirmou a organização Oxfam. Ao apresentar sua nova campanha mundial contra a fome, o grupo também exortou a União Europeia (UE) a acompanhar mais de perto o comércio de matéria-prima e apoiar agricultores de pequena escala no Sul em desenvolvimento.

Phil Bloomer, diretor de campanhas da Oxfam na Grã-Bretanha, disse que promover a produção de combustíveis à custa da produção de comida é um “escândalo obsceno” que contribui para o aumento do preço do milho e de outros produtos básicos. O custo dos alimentos cresceu firmemente nos últimos meses, depois de atingir, em 2008, seu pico em 30 anos. “Exortamos a UE a acabar com seu mandato sobre os biocombustíveis e reorientar sua ajuda ao desenvolvimento com um nível maior de concentração, e também pedimos que realmente lidere o mundo nos esforços para encarar a volatilidade dos preços, a transparência e a regulação do mercado de alimentos”, disse Bloomer à IPS no lançamento da campanha “Grow” (Crescer), da Oxfam. Continue reading “Crise alimentar: Oxfam põe o dedo na ferida” »

Sobre xenofobias e ignorâncias

Grupo de imigrantes é resgatado em alto-mar e chega à ilha italiana de Lampedusa

Grupo de imigrantes é resgatado em alto-mar e chega à ilha italiana de Lampedusa

Um estudo espanhol revela que imigração traz grandes benefícios econômicos aos países europeus, e destroi mais um argumento dos que querem ver os estrangeiros pelas costas

Por Thaís Romanelli, no Opera Mundi

Grupos políticos conservadores e xenófobos europeus frequentemente utilizam-se da tese de que o fluxo migratório é prejudicial à economia e a diversos outros aspectos da sociedade local. Recentemente, baseada nela, França e Itália iniciaram uma mobilização para restringir a livre circulação de pessoas nas fronteiras internas da União Europeia.

Entretanto, um estudo espanhol divulgado nesta quarta-feira (04/05) aponta que o retorno financeiro com imigração é maior do que as despesas públicas.
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Os planos de Funes para El Salvador

Em entrevista à New America Media, o novo presidente defende a recuperação do Estado e redução das desigualdades para amenizar problemas centrais como imigração e violência

El Salvador tornou-se, domingo, ao eleger o jornalista salvadorenho Maurício Funes, o mais novo país latino-americano à esquerda. Seu partido, Frente Farabundo Martí Frente Nacional de Libertação (FMLN), é presente nas lutas sociais desde os anos 30, entre governos que se opõe em diferentes graus ao domínio secular das elites.

Funes, antigo correspondente da CNN, tem linha moderada. Entrou no partido em 2008. Seu vice, Salvador Sanchez, foi candidato anteriormente e é do grupo dos socialistas revolucionários, ala mais radical do partido.

A disputa foi intensa, foram 51,2% votos contra 47%. A oposição usou o “perigo vermelho” como arma de campanha. O slogan “Eu não vou entregar meu país”, de Rodrigo Ávila, do Arena, alegava riscos do “chavismo”. Não faltaram acusações, com respaldo da mídia conservadora. De acordo com o grupo de pesquisas Funde, o Arena gastou quatro vezes mais em publicidade que o FMLN.

Além disso, o Arena tentou persuadir dois outros candidados a desistir em seu favor, de acordo com a revista The Economist.

O desafio de Funes será imenso; receberá um Estado extremamente empobrecido, numa conjuntura adversa. A estreita relação econômica com os Estados Unidos torna o país ainda mais vulnerável à crise financeira global.

Nos últimos trinta anos, quase um quarto dos salvadorenhos imigraram em busca de trabalho e as remessas estrangeiras correspondem a 17% do PIB nacional. Os investimentos estrangeiros significavam 3%, em 2005.

Em entrevista concedida à New America Media, o presidente-eleito expôs seus planos para o novo governo. (Veja o vídeo)

“Vamos mudar nossa forma de fazer política, interromper uma economia que dá privilégios aos privilegiados”. “Colocaremos o governo e a estrutura do Estado a serviço do povo salvadorenho – em sua totalidade – mas, fundamentalmente, da grande maioria oprimida e excluída do desenvolvimento social e econômico do país. Não só nos últimos vinte anos, mas há mais de 200 essas pessoas não tiveram a possibilidade de participar das políticas públicas. O governo que vou criar vai dar a eles o papel de protagonistas que nunca tiveram.”

Ao mesmo tempo, procurou acenar para os EUA e para cerca de 1.5 milhão de salvadorenhos que vivem no país, suas perspectivas:

“O fato de buscarmos reconstruir as instituições democráticas – dando força à Constituição e fazendo de El Salvador um Estado democrático, que respeita o vigor da lei – é a melhor garantia para os Estados Unidos de que vamos reduzir o fluxo de imigração”.

Sobre o radicalismo de esquerda, foi claro: “A primeira mensagem que gostaria de mandar a Obama é que não buscarei alianças ou acordos com nenhum chefe de Estado da parte sul do continente que possa estragar minha relação com os Estados Unidos”.

Em 2006, El Salvador obteve o maior índice de homicídios do mundo, segundo estatísticas oficiais (ONU). A violência urbana permanece alarmante; cerca de 40% vive abaixo do nível de pobreza. Parte da esfera geopolítica norte-americana na América Central, a presença militar transformou o país em teatro da Guerra Fria. Mais tarde, o conflito culminou em uma guerra civil, que foi somente resolvida em 1992.

O primeiro grande levante das guerrilhas no país aconteceu em 32. Foi organizado por indígenas ruralistas, em cultura de café. A reação dizimou dezenas de guerrilheiros em um episódio que ficou conhecido como La Matanza.

"O pior está por vir", diz Stiglitz

Mas ele vê luz no fim do túnel: “o momento de um novo Bretton Woods”

Coordenador de uma comissão formada pela Assembléia-Geral da ONU para debater alternativas para a crise, o economista Joseph Stiglitz apresentou terça-feira (24/2), ao grupo que dirige, um balanço ambivalente sobre os esforços adotados para superar as dificuldades atuais. Ele voltou suas críticas contra o apoio quase sem contrapartidas oferecido pelos Estados ao sistema financeiro, e contra a postura pouco solidária dos países mais ricos. Afirmou que a falta de ações coordenadas internacionalmente poderá ampliar as desigualdades no planeta e preservar estilos de vida e consumo destrutivos. Nações que estão no topo da hierarquia financeira, lembrou, têm meios para reagir; outras [veja acima o caso da Letônia], sucumbirão.

Stiglitz, porém, considera que surgiram, do ponto de vista político, razões para otimismo. Ele crê que a crise abre a oportunidade de corrigir as injustiças e desequilíbrios que se acumularam nos últimos trinta anos. “Para os economistas, é o momento mais estimulante”, disse: “podemos realizar o que as instituições criadas há 60 anos não alcançaram (…) Estamos esperando a oportunidade de propor um novo Bretton Woods e evitar que crises como esta voltem a ocorrer”.

Quase não noticiada pela mídia, a comissão da ONU foi formada em outubro do ano passado, por iniciativa do presidente da Assembléia-Geral, Miguel D’Escoto. É também chamada de G192, pelos que desejam frisar seu caráter mais amplo que o do G8 e G20. É um grupo heterogêneo. Constituído principalmente por ex-ministros da Economia e ex-presidentes de Bancos Centrais (do Brasil, participa Rubens Ricupero), inclui também personalidades como François Houtart, peça-chave da Teologia da Libertação e participante ativo nos Fóruns Sociais Mundiais.

Os trabalhos da Comissão pode ser seguidos em página especial (em inglês ou espanhol), no site das Nações Unidas. Seria ótimo encontrar, entre os participantes do blog, quem se disponha a acompanhá-los e relatá-los.