Morre Neiva Moreira, jornalista e rebelde

 

Histórias latino-americanas de alguém que tornou a profissão melhor por saber que, num mundo desigual, não é possível ser neutro 

Por Mauro Santayana, em seu blog

A morte de Neiva Moreira reclama algumas reflexões sobre o jornalismo e a política. A imprensa nunca foi inocente. Os donos de jornais – mas, da mesma forma, os jornalistas – atuam de acordo com seus interesses e suas idéias, e dessa atuação não se ausenta a questão fundamental do homem, a do poder.

A vida de Neiva Moreira foi a de excepcional jornalista engajado. Embora fosse de uma grande família no Maranhão, nascera em seu ramo menos afortunado, filho de modestíssimo comerciante, e em uma das mais pobres comunidades do Estado, embora com o nome de Nova Iorque. Como todo menino pobre que se torna órfão – em seu caso beneficiado pela sobrevivência da mãe professora, que incentivou suas leituras – Neiva teve que trabalhar tão logo o corpo permitiu. Vendedor de quitandas, ajudante de barqueiros, cobrador de mensalidades de pequena associação, ele se fez do melhor barro humano.

Como a maioria dos jornalistas daquele tempo, Neiva não chegou a concluir o curso médio. Desde a adolescência, sua formação se fez nas redações. Quando São Luís se tornou pequena para o jovem de 25 anos, que já se destacara como dos grandes redatores da cidade, Neiva buscou o Rio. Nos anos seguintes seu nome se firmaria como um dos mais atilados repórteres e analistas políticos brasileiros, preocupado com o inquietante jogo do poder, em seu estado, no país e no mundo. Continue reading “Morre Neiva Moreira, jornalista e rebelde” »

Judiciário pode proibir “porta dupla” em hospitais públicos paulistas

 

Tribunal de Justiça mantém provisoriamente decisão que impede atendimento preferencial a pacientes de planos de saúde privados

Por Conceição Leme, no Viomundo


Atualização: Em 15/5, a luta contra a segregação nos hospitais conquistou uma primeira vitória. A 2ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo negou recurso do governo paulista contra liminar que proibiu, em agosto passado, a “porta dupla”. A liminar está mantida até julgamento do mérito do processo.

Os desembargadores José Luiz Germano, Cláudio Augusto Pedrassi e Vera Angrisani, da Segunda Câmara de Direito Público do TJ-SP, julgarão  nesta terça-feira o recurso do governo paulista contra a decisão do juiz Marcos de Lima Porta, da 5ª Vara da Fazenda Pública, que derrubou a lei nº 1.131/2010.

A Lei da Dupla Porta ou dos fura-fila no SUS, como é conhecida, permite aos hospitais públicos geridos por Organizações Sociais de Saúde (OSs) vender até 25% dos seus leitos e outros serviços a planos privados de saúde e particulares.

Contra ela, unanimemente, dezenas de movimentos e entidades de saúde, entre os quais os conselhos municipal, estadual e nacional de Saúde e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). A sua aprovação pelo TJ-SP chancelará nova etapa de privatização da saúde no município e no Estado de São Paulo. Continue reading “Judiciário pode proibir “porta dupla” em hospitais públicos paulistas” »

Cartel global manipula laranja brasileira

Com omissão do ministério da Justiça, três corporações aviltam preços, quebram produtores e já controlam boa parte das lavouras nacionais

Por Luis Nassif, em seu blog

Quando a economia começou a se abrir, depositavam-se no CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) e na Secretaria de Direito Econômico (SDE) as esperanças de atuação objetiva contra a cartelização da economia. Sua desmoralização começou com Gesner de Oliveira, no CADE, e o escandaloso processo de aprovação da compra da Antarctica pela Brahma.

Depois, na gestão Grandino Rosa, no escandaloso episódio da compra da Garoto pela Nestlé. Escandalosa não foi a decisão do CADE – negando a aquisição – mas de Grandino em uma explosão contra o próprio colegiado que presidia.

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O terceiro episódio escandaloso são os movimentos do CADE em relação à concentração no setor de suco de laranja – e aí sai-se do governo FHC e entra-se no governo Lula, especificamente na gestão Márcio Thomas Bastos na Justiça.

Não há paralelo, no país, da ação mais predatória que a do cartel da laranja. Mesmo assim, uma denúncia de formação de cartel emperrou no Ministério da Justiça e só agora, muito lentamente, começa a ser retomada. Continue reading “Cartel global manipula laranja brasileira” »

O drama dos seres humanos ilegais — e como interrompê-lo

Antropólogo iraniano escreve sobre imigrantes, trabalhadores que o capital simultaneamente deseja e exclui. E aposta que controles migratórios podem se tornar obsoletos…

Por Roberto Almeida, no Opera Mundi

Hoje o iraniano Shahram Khosravi é antropólogo, professor da Universidade de Estocolmo. Mas há 30 anos ele era um imigrante sem documentos, pagando contrabandistas para ajudá-lo a fugir de sua terra natal. Ele peregrinou, deixou os dólares da família com policiais corruptos para escapar do serviço militar obrigatório, que o levaria ao front da guerra Irã-Iraque.

Khosravi transformou sua “rica” experiência em livro. ‘Illegal Traveller’ – An Auto-Ethnography of Borders (‘Viajante Ilegal’ – Uma autoetnografia de fronteiras, US$ 27, Amazon.com) é um guia de sobrevivência pelas linhas porosas que dividem o atlas global. “Fronteiras são símbolos e rituais de uma comunidade. Ter controle é mostrar a identidade e legitimidade do Estado”, disse o autor ao Opera Mundi.

Em meio à disputa de deportações entre Brasil e Espanha, que levanta suspiros patrióticos em ambos os lados, sem falar no limbo jurídico em que caíram imigrantes haitianos, que aguardam no Acre e em Rondônia documentação para trabalhar, Khosravi vê tudo como um grande “espetáculo” que prioriza a soberania de um país e se esquece das pessoas. Continue reading “O drama dos seres humanos ilegais — e como interrompê-lo” »

“Cachoeira”: como esquema operava (e Procurador-Geral se omitia…)

Em dois textos breves e densos, Luís Nassif narra ligações perigosas do bicheiro com construtora Delta e revista Veja, além da estranhíssima atitude de Roberto Gurgel

Por Luis Nassif, em seu blog

I. Coluna Econômica de 9/5

Pelas primeiras avaliações dos parlamentares que compõem a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) funcionava assim a associação criminosa entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a construtora Delta.

1. A Delta se habilitava a uma licitação na qual houvesse garantia de aditamento do contrato (isto é, de reajuste posterior do contrato).

2. Tendo essa garantia, apresentava um preço imbatível, muitas vezes inexequível. No caso do aeroporto de São Paulo, por exemplo, o maior lance foi de R$ 280 milhões. A Delta apresentou uma proposta de apenas R$ 80 milhões.

3. Ganhava a licitação e depois aguardava o aditivo. Enquanto isto, a empresa ficava sem caixa para bancar seus fornecedores – de peões de obra a vendedores de refeições e cimentos. Aí entrava Cachoeira garantindo o capital de giro da empresa com dinheiro clandestino, do jogo. Ou com o fornecimento de insumos, através de empresas laranjas. Estima-se que o desembolso diário do bicheiro fosse de R$ 7 milhões, mais de R$ 240 milhões por mês.

4. Quando vinha o aditivo, a Delta utilizava o recurso – legal – para quitar as dívidas com Cachoeira, através das empresas laranja. Era dessa maneira que Cachoeira conseguia legalizar o dinheiro do jogo. Continue reading ““Cachoeira”: como esquema operava (e Procurador-Geral se omitia…)” »

São Paulo: ônibus abandonados, agora em números

Parte dos passageiros abandonam rede de coletivos, após anos de descaso da prefeitura e abandono do projeto de novos corredores 

Por Raquel Rolnik, em seu blog

De 2006 pra cá, o ônibus foi a modalidade de transporte coletivo que menos passageiros atraiu na cidade de São Paulo. Considerando o total de viagens realizadas no transporte público, a participação dos ônibus passou de 65%, em 2006, para 58% no ano passado. A informação foi divulgada ontem em reportagem da Folha Online. No período, o número de viagens de ônibus aumentou apenas 13,3%, enquanto na CPTM este aumento foi de 63%, e no metrô, de 44%.

Além do crescimento da rede de metrô e trem, o principal fator responsável por essa situação é a falta de investimentos nos corredores de ônibus. A implementação da rede planejada para São Paulo foi simplesmente interrompida e nenhum novo corredor foi construído nos últimos anos. Além disso, o sistema de troncalização – ou seja, a redução do número de ônibus dentro do corredor e sua integração com linhas alimentadoras – nunca foi completado, o que faz com que o próprio corredor, mesmo segregado, fique congestionado… de ônibus. Continue reading “São Paulo: ônibus abandonados, agora em números” »

Número de conflitos no campo volta a crescer

Melhora nas condições de vida não ameniza característica histórica da sociedade brasileira: pequena minoria tenta controlar acesso à terra; trabalhadores rurais mantêm luta pela reforma agrária 

Na Adital

Os dados que a Comissão Pastoral da Terra está divulgando dão conta de um crescimento de 15% no número total de conflitos no campo, em 2011, em relação a 2010. Passaram de 1.186, conflitos, para 1.363. As pessoas envolvidas, 559.401, em 2010, 600.925 em 2011, mais 7,4%. Estes conflitos compreendem 1.035 conflitos por terra, 260 conflitos trabalhistas e 68 conflitos pela água.

Os conflitos por terra é que apresentaram um crescimento mais expressivo. Passaram de 835, em 2010, para 1.035 em 2011, um crescimento de 24%. O número de famílias envolvidas cresceu 30,3%, passou de 70.387, para 91.735. Continue reading “Número de conflitos no campo volta a crescer” »

A saga quase-ignorada dos catadores urbanos

Embora sejam responsáveis por quase toda a reciclagem do lixo nas metrópoles, eles continuam enfrentando preconceito e condições dramáticas de trabalho

Por Estevan Muniz, na Rede Brasil Atual

Os catadores de materiais recicláveis cumprem papel fundamental na reciclagem na cidade de São Paulo. Em cooperativas, eles operam centrais de triagem da prefeitura, onde os materiais são separados para reciclagem. O número total de cooperativas na cidade é desconhecido, mas há somente vinte conveniadas com a prefeitura. O convênio prevê que as cooperativas tenham a ajuda de caminhões para coletar o lixo, um espaço para exercer a atividade e os equipamentos necessários. Mas nem sempre esses benefícios são garantidos, e os catadores que nelas trabalham não recebem remuneração alguma da prefeitura, dependendo da venda dos materiais.

Nas cooperativas não conveniadas, não há nada disso, e a coleta é feita por carroceiros e pelos próprios catadores, que fazem a triagem. Muitos carroceiros vivem condições de subemprego, segundo o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), que estima em 2 mil o número de pessoas atuando nesta atividade. Continue reading “A saga quase-ignorada dos catadores urbanos” »

Uma aliança necessária

Para fortalecer lutas por sociedade mais livre e justa, multiplicar pontes entre movimentos tradicionais e novas formas de ação conectada via web

Por Rodrigo Savazoni, na Revista Forum

A relação entre os movimentos sociais e as novas tecnologias de informação e comunicação pode ser analisada por múltiplos ângulos. Pode-se abordar a resistência de parte dos movimentos tradicionais em se relacionar com essas ferramentas. Pode-se também enfocar os movimentos emergentes que, baseados no potencial técnico, organizam novas formas de ação. Pode-se, por outro lado, como é o objetivo deste texto, abordar a necessária aproximação entre esses mundos, na perspectiva de vislumbrar a conformação de uma ampla aliança em favor da transformação social.

No Festival #CulturaDigitalBr, encontro dos ativistas interconectados realizado em dezembro de 2011, essa junção de forças foi tônica. O mesmo pode ser dito do Fórum Social Mundial – que este ano ocorreu em Porto Alegre em sua versão temática e descentralizada –, onde em vários debates discutiu-se qual papel a internet e as tecnologias podem desempenhar na organização da luta social contemporânea, discussão que ocorreu em especial no evento Conexões Globais.  Continue reading “Uma aliança necessária” »

Marcio Pochmann questiona otimismo brasileiro

Em seu livro mais recente, presidente do IPEA lança dúvidas sobre papel da “nova classe média” e sobre perspectivas do país no século 21

Por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

“A estrutura fundiária do Brasil é hoje pior do que em 1920. Atualmente, 40 mil proprietários rurais concentram 50% das áreas agricultáveis do País. Também é preciso acabar com essa lógica perversa que impera, em que os mais pobres são exatamente os que pagam mais impostos”.

A frase acima, do economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), requer a coragem dos que remam contra a maré. O Brasil, afinal, é o país do agronegócio, onde o senso comum equivocado nos diz que os ricos vivem sufocados pela carga tributária do impostômetro. Ou seria impostura? Continue reading “Marcio Pochmann questiona otimismo brasileiro” »

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