Dez mentiras que cercam o Pinheirinho

Desabrigados do Pinheirinho -- Anderson Barbosa/Fotoarena/Folhapress

Desabrigados do Pinheirinho -- Anderson Barbosa/Fotoarena/Folhapress

Eis algumas das superstições consciente e oportunamente utilizadas pelo poder sobre o tema

Por Hugo Albuquerque, O Descurvo

Com a tragédia ainda em curso, e a quantidade colossal de sofismas e boatos propositalmente espalhados acerca do Pinheirinho, me dei ao trabalho de selecionar as dez piores mentiras – no sentido de superstição consciente e oportunamente utilizadas pelo poder – que estão a pairar por aí sobre o tema. Vamos lá:

1. “Não houve violações, a reintegração de posse foi pacífica”

Eis a pior e mais primária de todas. Vídeos aos montes, fotos aos milhares,  além de relatos emocionados de testemunhas oculares – como o nosso Tsavkko - e de moradores - dados, inclusive, para a imprensa internacional – contradizem isso. A polícia não veio para brincar, com sua tropa de choque, suas balas de borracha e sua sede por violência. Atacaram uma comunidade formada por famílias – seus velhos, suas crianças, pessoas com necessidades especiais – e quem ficou no meio do caminho apanhou. Sobre eventuais distorções da nossa imprensa, convido à leitura do que pensa sobre isso o Guardian, um dos principais jornais do mundo.

Continue reading “Dez mentiras que cercam o Pinheirinho” »

A “revolução” da informação no Estado brasileiro

Para permitir um efetivo controle das ações dos ministeriais – pela mídia e orgãos de controle -, Governo lança programa de transparência que permite consultas em tempo real. Mas ainda é pouco

Por Luis Nassif

Talvez porque o tema gestão pública não seja devidamente compreendido pela mídia, passou com pouco destaque o início de uma verdadeira reforma de Estado brasileira, ocorrida na última reunião ministerial presidida por Dilma Rousseff.

Lá, foi solicitado a cada ministro que, no prazo de seis meses, prepare o sistema de informações online do seu Ministério, para acompanhamento das ações em tempo real.

Mais da metade da reunião girou em torno do tema. Continue reading “A “revolução” da informação no Estado brasileiro” »

Massacre em Unaí: oito anos de impunidade

Como foram mortos os fiscais que autuavam fazendeiros por manter trabalhadores escravizados. Por que a região tornou-se recordista em uso de agrotóxicos e incidência de câncer

Por Gilvander Luiz Moreira*, Adital

Era dia 28 de janeiro de 2004, 8h20’ da manhã. Em uma emboscada, cinco jagunços dispararam rajadas de tiros em quatro fiscais da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho, perto da Fazendo Bocaina, município de Unaí, Noroeste de Minas Gerais. Passaram-se 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 anos. Justiça? Cadê? Dia 28 de janeiro próximo completa oito anos desse bárbaro massacre. Quatro indiciados como mandantes estão soltos. São Antero Mânica (prefeito de Unaí, pelo PSDB), Norberto Mânica (“rei do feijão” (?)), Hugo Pimenta e José Alberto Costa, que contratou os executores. Estão presos quatro dos acusados: Francisco Pinheiro, Erinaldo de Vasconcelos Silva, Rogério Alan da Rocha Rios e William Gomes de Miranda. Humberto Ribeiro dos Santos, acusado de haver sido o encarregado de apagar as provas do crime, foi libertado.

Antes do tempo, na maior chacina contra agentes do Estado brasileiro, foram ceifadas as vidas de Erastótenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva (Auditores Fiscais do Trabalho) e Ailton Pereira de Oliveira (motorista oficial). Por quê? Como servidores éticos, estavam cumprindo seu dever: fiscalizando fazendas no município de Unaí. Multaram vários fazendeiros. A família Mânica, por exemplo, foi multada em mais de 3 milhões de reais. Após uma infinidade de recursos, pagaram apenas 300 mil reais. As multas foram por terem encontrado trabalhadores em situações análogas a escravidão, sobrevivendo em condições precárias e se envenenando com a aplicação exagerada de agrotóxicos na monocultura do feijão. Por isso, os fiscais foram ameaçados de morte. O fiscal Nelson chegou a fazer um relatório alertando sobre as ameaças de morte que vinha sofrendo. E, tragicamente, não ficaram só nas ameaças, aconteceu um massacre. Continue reading “Massacre em Unaí: oito anos de impunidade” »

Desocupação compulsória também no Rio

Governo quer deslocar comunidade do Morro da Providência  para erguer Porto Maravilha, com teleférico e plano inclinado para gringo ver. “Não vamos sair”, diz moradora

Por Pública

No site da prefeitura do Rio de Janeiro, em letras garrafais, a manchete anuncia: “Condomínio da Providência livra famílias de áreas de risco”.

O texto segue dizendo como a vida de ao menos 119 famílias moradoras das comunidades de Pedra Lisa e Providência irá mudar ainda no primeiro semestre de 2012, quando elas deixarão suas casas “atualmente em situação de risco” para serem beneficiadas. Continue reading “Desocupação compulsória também no Rio” »

Planeta Dívida


Dívida pública/PIB (The Economist, 2011)

A dívida generalizada pelo mundo opera no nível subjetivo, moldando uma espécie bastante específica de sujeito social: o homem endividado

Por Bruno Cava, Quadrado dos Loucos

Na última década, a dívida dos estados mais que dobrou. Foi de 18 trilhões, em 2001, para 45 trilhões de dólares, em 2011. Os países desenvolvidos são os mais endividados: devem mais de 150% do PIB. Fala-se em “dívida soberana” do país, mas hoje vários estados europeus foram subjugados exatamente por causa dela. A chantagem da dívida submete os governos e, em tempos de crise global, desmascara a farsa democrática. Fica exposto quem verdadeiramente comanda a máquina representativa, triplamente mistificada por estado, partidos e grande imprensa — um único saco de farinha. A ponto de, na Itália, os plutocratas resolverem assumir o governo eles mesmos, na figura de Mário Monti. O financista insider é o novo primeiro-ministro. Jamais um golpe de banqueiros e rentistas (mercados…) tomou um governo de modo tão escancarado. It´s business, stupid!

Nos países emergentes, é verdade que a dívida pública relativa ao PIB caiu sensivelmente, de 49% para 45%, no mesmo período. O que se deve, em boa parte, ao crescimento do PIB desses países, e não à redução do débito bruto. A dívida interna brasileira, por exemplo, pela primeira vez ultrapassou 1,0 trilhão de dólares, em 2011, cerca de 40% de seu PIB ascendente. Continue reading “Planeta Dívida” »

“Nos EUA, é hora de uma nova esquerda”

Um dos inspiradores do Occupy conta como ajudou a pensar o movimento, diz estar desiludido com Obama e afirma que é possível postular de novo, por outros caminhos, a transformação da sociedade

Por Carlos Alberto Jr., Opera Mundi | Foto de Gerrit van Aaken/Flickr.com

Muita gente nunca ouviu falar na revista Adbusters. Editada em inglês em Vancouver, no Canadá, a publicação com tiragem mundial de 120 mil exemplares tem como objetivo declarado desestabilizar as estruturas de poder existentes no mundo e forjar uma mudança na forma como as pessoas viverão no século 21. Missão impossível?  O editor-chefe da revista, Kalle Lasn, garante que não. Foi com essa certeza que a modesta revista iniciou um movimento que promete abalar as estruturas do sistema politico norte-americano neste ano eleitoral. Continue reading ““Nos EUA, é hora de uma nova esquerda”” »

Punir também os corruptores


Nos inúmeros casos de corrupção, há sempre um lado protegido, especialmente pela mídia. São as empresas que pagam propinas — e podem se dar mal, se um projeto de lei for aprovado

Por Carlos Zarattini, em Teoria & Debate

Nas recorrentes denúncias de corrupção que há décadas afloram no noticiário, surgem diariamente nomes de funcionários públicos e políticos, mas pouco se fala das empresas corruptoras.

Na base do processo, costumeiramente, há os milionários interesses empresariais na disputa por contratos em todas as esferas e níveis da administração pública – municipal, estadual e federal – que, na ausência de legislação rigorosa, atuam impunes com práticas condenáveis. É hora de a sociedade dar um basta a essa situação. O Congresso Nacional tem papel histórico a cumprir, para a vigência dos valores éticos nas relações entre o público e o privado no país.

O Projeto de Lei [PL] nº 6.826/2010, encaminhado ao Congresso pelo presidente Lula, visa preencher as lacunas existentes na responsabilização de pessoas jurídicas em atos contra a administração pública nacional e estrangeira, em especial os atos de corrupção. Tem abrangência maior e prevê punições mais graves do que as previstas na Lei de Licitações. Permite, também, punir a ação de corrupção em relação à fiscalização tributária, ao sistema bancário público e às agências reguladoras.

Continue reading “Punir também os corruptores” »

Nem por esperteza, Alckmin demonstrou sensibilidade

“Que as fotos das mães e filhos chorando as casas perdidas sejam uma maldição a acompanhar o governador pelo resto da vida política”

Por Luis Nassif, em seu blog

É trágica a maneira como o PSDB joga pela janela oportunidades políticas.

A vulnerabilidade central do partido é a insensibilidade social. Mesmo no bem avaliado governo Aécio Neves, a crítica central era a falta de preocupação social. Em São Paulo, a arrogância administrativa, das decisões de gabinete, sem nenhuma preocupação em ouvir, planejar ações.

Aí o partido reune sua executiva para pensar o futuro. As únicas fontes de pensamento “novo” são financistas, exclusivamente preocupados em vender o peixe do mercado para o partido. Continue reading “Nem por esperteza, Alckmin demonstrou sensibilidade” »

Dor, sofrimento e erro de cálculo

Do ponto de vista de política pública, a Operação Centro Legal foi repressão pura. Como política de assistência social, foi desassistência. E, do lado da Saúde, um reforço à doença

Por Maria Inês Nassif, Carta Maior | Charge de Maringoni

Por qualquer ângulo que se analise, a tal política de combate ao crack pela “dor e sofrimento”, inaugurada pelo governo do Estado de São Paulo (aparentemente de forma coordenada com a prefeitura paulista), é mais um capítulo da política higienista que foi a marca dos governos José Serra e Gilberto Kassab na prefeitura da capital, nos últimos quase oito anos; e é mais um episódio da opção preferencial do governador Geraldo Alckmin pelo uso da força policial, a exemplo do que aconteceu nas suas gestões anteriores (2001-2002 e 2003-2006).

A ação policial, enfim reconhecida como fonte de desgaste e abandonada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado, não obteve nenhum resultado positivo. Foi simplesmente um ato de truculência. Os dois mandatários, do Estado e da capital, apenas conseguiram reforçar suas imagens de governantes conservadores, com o cerco e a agressão aos dependentes químicos da Cracolância paulistana – a chamada “Operação Centro Legal” -, o presente de Ano Novo da polícia paulista aos maltrapilhos que se aglomeram no centro da cidade para consumir a pedra. Continue reading “Dor, sofrimento e erro de cálculo” »